Pedalando por Cuba de leste a oeste, 2024. [parte III]
Há momentos em que temos que dar um passo maior que a perna.
Como disse no início, depois de tanta espera, essa não poderia ser uma visita trivial a Cuba. Saí do Brasil com o firme propósito de pedalar do Farol de Maisí, o ponto mais oriental da Ilha, de frente para o Haití, até o Farol Roncali, no extremo oeste de Cuba, de frente para Cancun. Inter Faróis! Esse era o nome da viagem até ela começar.
Na manhã seguinte, a Filha do Vento… e eu tomamos um ônibus da Viazul, a companhia estatal de transporte rodoviário do país, e fomos para Santiago de Cuba, numa viagem que durou 18 horas. Dormi uma noite em Santiago e no dia seguinte fui para Baracoa num taxi Chevrolet um pouco mais velho que eu, com a Filha do Vento… amarrada de rodas para o ar na capota.
Baracoa é uma cidade de porte médio para os padrões cubanos, com 75 mil habitantes, situada muito convenientemente entre duas baias, circundadas por montanhas, na província de Guantánamo – de donde crescen las palmas – extremo leste de Cuba. Diz-se que ela foi fundada pelo primeiro governador espanhol em Cuba, em 1511, tendo sido a primeira capital da Ilha. Será? Desconfio que esse senhor tenha chegado aqui, expulsado a pólvora e bala os habitantes do local, se apoderado de suas casas e construído um templo para o Seu deus no meio da praça central.
Meu plano era pedalar, no dia seguinte, até Punta de Maisí, 69 km ao leste pela terra, onde fica o Farol de Maisí, e a partir de lá começar oficialmente a travessia. Mas a dona da casa particular onde me hospedei me alertou que o caminho para lá estava bloqueado pela polícia por motivos que ela desconhecia. Confirmei essa informação com outros moradores. Então, extremamente contrariado, comecei a travessia a partir de Baracoa mesmo. Meu destino final era o extremo oeste da Ilha, onde estava o Farol Roncali.
Na maioria dos dias, tinha o sol na cara pela manhã e nas costas à tarde. O vento vinha de traz. Em janeiro eles sopram predominantemente para o oeste, o que justificou fazer a travessia nesse sentido. Pernoitei em grandes, médias, pequenas, minúsculas cidades e vilas ao longo do caminho. Tipicamente, tomava o café da manhã em meio a longa conversa com minha família do dia, saía com a bicicleta em torno das 8 horas e seguia pedalando até o próximo pouso programado, geralmente no meio da tarde. Ao chegar, procurava uma casa particular, me instalava e saía andando pela cidade até o começo da noite.
Não vou ficar aqui descrevendo o dia a dia da viagem – levantei-me, estava chuvoso, mesmo assim desci pelo vale, encontrei um sujeito meio estranho, a comida estava boa, mas o pneu furou. Bastam os intermináveis relatos disponíveis na internet de gente que pedalou em Cuba antes e depois de mim. Mas devo dizer que no vaivém da viagem, encontrei pessoas que pareciam saídas de um romance roseano — inesperadas, intensas, irrepetíveis. Como o Sr. José, que encontrei na beira da estrada saindo de Guardalavaca. Ele tocava acordeom. Parei para conversar. Quando falei que era brasileiro, me disse que amava os irmãos Roberto e Erasmo Carlos. Conhecia todas as suas músicas de cor, me tocou algumas. Expliquei que não eram exatamente irmãos e que Erasmo havia morrido há alguns anos. Ele chorou. Depois, me arrependi. Para que tanta informação?
Demorei um pouco para encontrar meu ritmo de viagem. Numa longa e muscular viagem como essa, é fundamental equilibrar o que entra no corpo – em termos energéticos – com o que é gasto. A conta tem que fechar se não o ciclista emagrece demais, consome sua própria musculatura e tomba pele e osso no meio do caminho. Meu gasto calórico dobrou durante a viagem. Numa estimativa conservadora, levando em conta minha velocidade, peso da bicicleta, ganho acumulado de altitude, horas pedaladas, calculo que gastava pouco mais de 2 mil calorias diariamente só pedalando. Nos primeiros dias eu jantava duas vezes em botecos diferentes, o que se por um lado era bom pela antimonotonia, por outro lado era pouco prático e um tanto indigesto. Mas depois de alguns dias encontrei uma solução perfeita, a minuta de pescado.
Quando possível, me desviava das carreteras e seguia por pequenas estradas de terra batida, algumas vezes muito irregulares, chamadas caminos de boyeros – caminhos ancestrais usados por carros de bois e seus condutores, os boyeros. Nesses caminhos cruzava com trabalhadores braçais ostentando a energia que brotava de seus corpos musculosos. Circulavam entre plantações e criações de gado conversando alto e rápido entre si numa linguagem que eu mal entendia. Como essa gente faz para manter a força num trabalho tão extenuante? Indagava com meus botões. De volta para as carreteras, percebi que de tempo em tempo cruzava com bares à beira da estrada lotados de boyeros, em pé no balcão, comendo com muito entusiasmo um sanduba delicioso: um peixe de tamanho médio aberto, empanado e frito, coberto por rodelas de tomate e cebola, uma boa porção de maionese ou vinagrete, tudo sanduichado num belo pedaço de pão. Essa era a minuta de pescado, o segredo da energia dos trabalhadores braçais durante suas jornadas. Invariavelmente, populações locais encontram soluções locais para problemas locais. Cuba é uma porção de terra cercada de peixes por todos os lados (e também lagostas baratas e deliciosas). Pão, tomate, cebola e ovo (para a maionese) não costumam faltar. Pronto, estava ao meu alcance a solução. A cada duas horas de pedal, mais ou menos, eu parava num boteco para comer uma minuta de pescado com um copo de café muito açucarado. Ali tinha tudo o que eu precisava: carboidrato de absorção lenta (pão), carboidrato de absorção rápida (sacarose), proteína de fácil absorção (peixe), sais minerais e eletrólitos para reposição de perdas no suor (peixe), estimulante (cafeína), e de quebra quem sabe até um pouco de ômega 3. A minuta de pescado com um copo de café caprichado no açúcar contém cerca de 600 kcal. Estimo que gastava 350 kcal por hora pedalada. A conta fechava à noite com uma porção extra de arroz e eu parei de sofrer e emagrecer no pedal.
E foram passando Moa e Mayarí, vermelhas de minério;
Guardalavaca e Gibara, ao vento salgado do norte;
Las Tunas e Jatibonico, onde o sol descia pesado;
Camangüey, desenhada em labirintos;
Playa Ancón e Trinidad, de azul turquesa caribenho;
Santa Clara, y la estrella que lo puso allí;
Sagua e Colón, de siestas mornas prolongadas;
Matanzas e Güines, em meio a rios e canaviais;
Viñales, de tabaco entre mogotes;
Pinar del Rio, última agitação antes do silêncio imenso do Guanahacabibes
E cheguei à Ciudad de Sandino, no início da tarde. Meu plano era pedalar mais 11 km até um pequeno vilarejo de pescadores abrigado numa baia, comer minuta de pescado e tomar algumas fotos. Depois seguir mais 10 km para dormir na Vila Manuel Lazo, porta de entrada para o Parque Nacional Guanahacabibes, onde fica o Farol Roncali. Mas ainda em Sandino mudei de ideia. Para chegar ao farol teria algumas barreiras a superar. A entrada no parque requer uma permissão governamental. Além disso, seriam 100 km de pedal só de ida até o farol, por uma região praticamente desabitada e inóspita, sem botecos com água e minutas de pescado. Tive receio de me desidratar no caminho, não encontrar uma casa particular por lá e ter que fazer um exaustivo e perigoso bate-volta. Além disso, sentia um cansaço acumulado que estava chegando a níveis críticos.
Quarenta e dois dias após ter saído de Baracoa, tendo já pedalado cerca de dois mil quilômetros, dei a travessia por encerrada. Trazia na bicicleta os mesmos cinco quilos com os quais iniciei a viagem. Mas no percurso acumulei enorme bagagem.






