post

O NEPAL NÃO SAI DA GENTE

A caminho de Lukla

A caminho de Lukla

Lukla é a Babel do Khumbu. Um povoado nervoso, com tribos dos quatro cantos do mundo, cada qual falando seu próprio idioma. Carregadores chegam e partem a toda hora, trazendo ou levando tralha montanha acima. Tropas de jumentos e yaks lotam as vias principais abastecendo hospedarias e o comércio local. Cheguei encharcado, em meio a uma chuva fina e contínua, tão contínua que continuou por dias a fio.

Aeroporto de Lukla (foto do Wikipedia)

Aeroporto de Lukla (foto do Wikipedia)

Tem um aeroporto em Lukla que por si só vale uma visita ao povoado. A pista de pousos e decolagens é única, estreita, curta e inclinada. Inclinada! Os teco-tecos pousam subindo ladeira. E para piorar o estresse, a pista fica no topo de um morro, ladeado por montanhas mais altas. Talvez por isso eu tenha chegado andando, mas todos vêm mesmo é de avião. Inclusive Emiliano, Mariana e Beatriz, genro e filhas, com quem Rita e eu nos juntamos e seguimos viagem.

De Lukla rumo ao Everest

De Lukla rumo ao Everest

De Lukla em diante tudo mudou (veja o trajeto). O cenário é outro. Começa a alta montanha. As árvores vão diminuindo de tamanho e se espaçando cada vez mais para por fim sumirem. A vegetação toda vai rareando, rareando até acabar. A umidade vai diminuindo, a luminosidade aumenta, o frio chega e se intensifica, os picos nevados aparecem por todos os lados, e o sentimento é de deslumbramento e imensa solidão.

No caminho

No caminho

O cenário social muda também radicalmente. Os povoados são cada vez mais esparsos. Turistas andam em bandos coloridos e barulhentos. A economia gira toda em torno do turismo de aventura.  Pelo caminho se encontram hospedarias, pequenos restaurantes, comércio de tralhas de acampamento, turistas de todos os cantos do mundo andando em grupos e procissões de carregadores levando 30 ou mais quilos de roupas de frio, saco de dormir e outros apetrechos de seus clientes.

Caminhando

Caminhando

Rita e Ricardo

Rita e Ricardo

De Lukla caminhei para Phakding, Nanche Bazar, Khumjung, Khumde, Tengboche, Dingboche, Lobuche e Periche, para depois voltar para Nanche e Lukla, completando cerca de 150 km de caminhada.

Passei ainda alguns dias em Lukla até acumular suficiente coragem para voar daquele medonho aeroporto até Kathmandu, e de lá voltar ao Brasil. E assim terminou minha primeira aproximação do Nepal.

Melhor dizendo, ainda não terminou. O Khumbu continua povoando meus sonhos, minhas lembranças, minha imaginação. A gente sai do Nepal,  mas o Nepal não sai da gente.

 

 

 

 

Anúncios
post

O CRISTÃO TEM QUE ANDAR A PÉ

Comboio, Khumbu

Comboio, Khumbu

Cheguei a Jiri (1.835 metros acima do nível do mar) ao entardecer e logo comecei a andar por caminhos de terra estreitos e sinuosos em meio a uma floresta temperada densa. Subi a 2.400 metros para depois descer rumo a um vale de um rio caudaloso às margens do qual fica o povoado de Shivalaya, a casa de Shiva em nepali, onde passei a noite numa pequena hospedaria, com mesas coloridas no terraço à beira do rio.

em Shivalaya

em Shivalaya

A partir daí estabeleci uma rotina. Pelos próximos 7 dias acordava com a primeira luz da manhã, saía para uma caminhada de 8 a 10 horas até o próximo pouso, onde chegava exausto ao anoitecer. Nos primeiros dias me sentia muito cansado, mas o corpo foi se acostumando com o novo ritmo ao longo do tempo. Assim, fui passando pelos povoados de Bhandar, Kinja, Taktobuk, Jumbesi, Nunthala, Kharikola, Bupsa e finalmente cheguei à cidade de Lukla (2.850 metros de altitude), 90 km adiante de Jiri, onde parei por alguns dias.

IMG_1994

IMG_1997O caminho foi um sobe e desce sem fim. Não há nada plano no Khumbu. Atingia passos de 2.500, 3.000, 3.500 metros de altura para depois descer para vales entre 1.500 e 2.000 metros. E depois subia, subia, subia, para descer novamente…

Ao caminhar durante esses dias tive uma amostra da vida simples e aparentemente feliz dos nepaleses que vivem no Khumbu. Pequenas vilas, precedidas por rodas de oração e monumentos budistas, surgiam a cada dobrada do caminho, com casas brancas e janelas coloridas. Crianças brincando e correndo para lá e para cá me cumprimentavam sorridentes: namastê. Homens cuidavam dos animais e tocavam comboios de mulas e yaks carregados de itens do comércio local. Mulheres cuidavam da lavoura e das crianças pequenas.

no vale

em Jumbesi

O povo era de uma delicadeza e cordialidade impressionante. Tive oportunidade de me hospedar em casas de gente comum, comendo a comida do dia-a-dia, assistindo todo o cerimonial de preparo das refeições, participando da rotina familiar.

IMG_2001

Idosa

E como se não bastasse tudo isso, o cenário era espetacular. Andei por montanhas e vales de uma floresta temperada muito úmida, praticamente intocada. Cruzei bosques densos com árvores enormes. Atravessei incontáveis pontes sobre rios e riachos em fundos de vales que pareciam saídos de contos de fadas. Em muitos lugares, apenas o entorno das casas teve sua vegetação original derrubada para aproveitamento do solo com plantações de hortaliças, legumes, algumas frutas e criação de pequenos animais. Quase não há comércio de alimentos nessa região. As famílias preparam a terra ainda com arado puxado por animais e comem o que produzem.

pausa para o lanche

pausa para o lanche

A impressão que tive é que as pessoas vivem aqui como há um século. À parte a luz elétrica (fraca e intermitente), o telefone celular (que muitas vezes não tem sinal) e a televisão, nada mudou por aqui nas últimas décadas. As roupas, os costumes, as festas remetem a tradições seculares. As músicas que ouvia saindo das janelas das casas eram tradicionais nepalesas. Mesmo alguns programas de televisão mostravam músicas e danças locais.

lombar

lombar

Não há estradas no Khumbu. Todo o transporte, de mercadorias e de pessoas, é feito a pé. Existem jumentos e yaks para carga, mas são conduzidos por pessoas a pé. E como é bom andar a pé! O cristão tem que andar a pé! Quando cheguei a Lukla não cabia em mim de tanta felicidade. Certamente, foi uma das minhas mais gratificantes experiências de viagem. Muito bom andar a pé todos esses dias por essa região praticamente intocada pela globalização. E apesar de estar na Ásia, de frente para o Himalaya, lembrava o tempo todo de uma música que ouvia quando criança no sertão de Pernambuco, terra de meu pai. (clique para ouvir)

Automóvel lá nem se sabe

Se é home ou se é muié

Quem é rico anda em burrico

Quem é pobre, anda a pé

Mas o pobre vê na estrada

O orvaio beijando a flô

Vê de perto o galo campina

Que quando canta, muda de cor

Vai moiando os pés no riacho

Que água fresca, nosso Senhor

Vai oiando coisa a grané

Coisas que, pra mode ver

O cristão tem que andar a pé

post

KATHMANDU

Durbar Square, Kathmandu

Mulher na Durbar Square, Kathmandu

Após 21 horas entre vôos e conexões, cheguei a Kathmandu. Vinha com Rita, minha esposa e grande companheira de viagem. (Fiz toda a caminhada com ela e, mais a frente, com Mariana, Beatriz e Emiliano, filhas e genro. O texto está em primeira pessoa porque é uma versão minha de tudo o que ocorreu. As fotos são minhas também.)

O caminho para o hotel já deu uma amostra da cidade: grande, densa, colorida e maltratada. O trânsito é caótico, um emaranhado de ônibus, carros e motos buzinando sem cessar. A acessibilidade é nenhuma. Diferentemente de algumas cidades grandes da América Latina e da África onde estive, não se nota a presença ostensiva da policia nas ruas. Apenas alguns poucos policiais de trânsito em grandes cruzamentos.

Mulher na Durbar Square, Kathmandu

Mulher na Durbar Square, Kathmandu

Kathmandu fica num vale, 1300 metros de altitude, rodeada por montanhas não muito altas ao longe.  Espalhados pela cidade e arredores existe um grande número de templos budistas, hindus, palácios, monumentos, praças que conferem à cidade uma atmosfera exótica e sedutora.

No dia seguinte, fui ao que pareceu ser a rodoviária logo ao amanhecer e peguei um ônibus para a cidade de Jiri, 180 km a nordeste de Kathmandu. A viagem se estendeu por 8 horas, a maior parte delas zigzagueando em uma estrada muito estreita, subindo e descendo montanhas. O risco de rolar ribanceira abaixo era real.

Buda, Kathmandu

Buda, Kathmandu

O motorista corria feito louco. Dentro do ônibus lotado tocava música indiana em alto volume, que se misturava com o rangido dos freios e as buzinas dos veículos em direção oposta. Ao encontrar com estes em alguns pontos da estrada onde mal cabia um veículo, a negociação para a passagem era improvisada pelos respectivos motoristas aos berros. O ônibus parou três vezes. Uma parada para o almoço, às 9h40 da manhã! Outras duas para um xixi coletivo. Na primeira parada hídrica, custei para entender o que estava acontecendo. Os homens correram para o mato de um lado da estrada, e as mulheres fizeram o mesmo para o outro lado. Na segunda parada já estava mais familiarizado e acompanhei o comboio masculino até o banheiro coletivo. Finalmente cheguei a Jiri e comecei a fazer o que iria se repetir pelos próximos 25 dias: andar, andar, andar. Estava ainda aturdido, metabolizando esse turbilhão de emoções que foi a viagem de ônibus.

post

MOTIVAÇÃO

O Monte Everest fez parte dos meus sonhos na adolescência. Lembro bem quando fui apresentado a ele numa aula de geografia. Logo me fascinou a história dos grandes aventureiros ocidentais que se dedicaram a conquistar o topo do mundo; os 101 anos que se passaram entre a identificação do Everest e sua “conquista”; as muitas expedições que falharam a caminho do cume, os inúmeros alpinistas que foram soterrados sob a neve do Himalaya até que Tenzing Norgay, um sherpa, acompanhado de Edmundo Hillary, alpinista neozelandês, finalmente pisassem no local mais alto do planeta em 1953.

IMG_2000

Mulher Sherpa

Mas essa estória ficou perdida num passado distante. Não sabia nada sobre a magia do Vale do Khumbu e seu significado para o povo sherpa. Apenas recentemente, casualmente assistindo a um documentário sobre a região, fiquei encantado com a possibilidade de andar a pé sob o ar rarefeito de infinitas trilhas que talvez me levassem a conhecer algo sobre a cultura e a alma dos homens e mulheres que vivem no local.

post

A TERRA DO POVO SHERPA

O povo Sherpa acredita que o Vale do Khumbu foi criado por Padmasambhava, fundador do Budismo Tibetano, para ser usado como refúgio em tempos de fome, doenças, perseguições. Por nisso acreditar, para lá migraram há 500 anos, fugindo de conflitos religiosos no Tibet.

Vale do Khumbu

Padmasambhava exagerou nas tintas. O Khumbu é MUITO lindo. Ao seu norte fica, nada mais, nada menos que Chomolangma, que em tibetano significa “deusa mãe do universo”, e que os ingleses rebatizaram alguns milênios depois, com muita prepotência e nenhuma criatividade, de Mont Everest. Não bastasse isso, Chomolangma vem ladeado por inúmeros picos, todos mais de duas vezes mais altos que a mais alta montanha brasileira. Na direção sul se estende o vale propriamente dito, ladeado a leste e a oeste por paredões nevados, que termina numa floresta temperada úmida. No meio disso tudo, vilarejos perdidos no tempo.