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VOLTANDO PARA NOSSO MUNDO

Logo ao amanhecer, após termos explorado o topo do Monte Roraima intensamente nos últimos dois dias, levantamos acampamento e iniciamos nossa longa volta. Nossa última visão no topo, ao iniciarmos a descida, foram “os guardiães”, pedras estreitas e compridas, posicionadas “em pé”, que lembram soldados guardando uma passagem.

voltando...

O percurso ascendente, da entrada do parque até o topo, que fora percorrido em três dias, na descida foi feito em apenas dois. Inicialmente, partimos do topo do Monte Roraima, almoçamos no acampamento base e dormimos às margens do Rio Tek. É interessante como o nível de exigências e conforto a que estamos acostumados no dia-a-dia vai caindo ao longo da expedição. Nesta noite bebemos cerveja quente, e estava absolutamente deliciosa!

No dia seguinte percorremos o ultimo trecho, do acampamento no Rio Tek à entrada do Parque Nacional Canaima, em Paraitepuy, onde chegamos por volta da hora do almoço. Tivemos nossas mochilas inspecionadas, no check-out do parque. Ao final da expedição a sensação era de ter estado em outro mundo, Belo, surpreendente, exótico.

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ANDANDO EM OUTRO MUNDO

Passamos esses dois dias percorrendo intrincados caminhos que levavam a um sem número de paisagens exóticas no topo do Monte Roraima. É difícil descrever o que há por lá. A começar pelo clima, que oscila entre o sol intenso e a chuva forte com vento e neblina espessa, em questão de minutos. São 30 km2 de paisagens inusitadas. A localização também é estranha. Andamos a 2.700 metros de altitude, ora na Venezuela, ora na Guiana, ora no Brasil. Passamos por monumentos de pedra, esculpidos pela água e o vento ao longo de dois milhões de anos, formando imagens as mais bizarras. A vegetação, heróica e bela, brota por entre as pedras. Uma exuberância de vales, lagos, cachoeiras, plantas insetívoras, flores exóticas, grutas, anfiteatros de pedra, abismos se estendem para todo lado. Em um determinado ponto, de repente, o caminho se torna coberto de cristais de quartzo. Visto de longe, parece ter nevado recentemente, pois o chão se torna branco. Mais à frente, um poço de onde se pode mergulhar de uma altura de 7 metros em água corrente e fria, saindo por uma galeria subterrânea sustentada por pilares de pedra.

 

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A CHEGADA AO TOPO DO MONTE RORAIMA

Acordamos às 5 horas, com tempo aberto e temperatura baixa, 12 graus. Tomamos um café ansioso e logo começamos caminhar, rumo ao topo.

à direita, o início da ascensão para o Monte Roraima (ao fundo o Tepui Matauí)

Andamos embrenhados numa mata equatorial úmida. Encharcada. Verde. Exagerada. A água escorria por toda parte, e, como se não bastasse, ainda brotava do chão. Foi o trecho mais cansativo da expedição. E, sem dúvida, o mais bonito até o momento. Subimos 800 metros em 4,5 km de trilha, com muitos declives, alguns longos, permeando o traçado ascendente. À nossa direita, sempre o paredão vertical, que dependendo da incidência de luz, refletia um amarelo avermelhado. À nossa esquerda, um vão enorme e lá embaixo a ondulação da Gran Sabana, cada vez mais distante. A trilha era fechada e acidentada, com pedras lisas, soltas, e muitos trechos de lama. A neblina densa, a garoa intermitente, os sons de animais invisíveis, as bromélias gigantes espalhadas pelo caminho, tudo conspirava a favor do mistério e da magia que envolvem o Monte Roraima. Passamos pelas “lágrimas”, um passo de cerca de 30 metros com a chuva eterna formada por um dos olhos d’água da montanha. Ao subir essa encosta escarpada lembrei que ela se destacou do resto da Sabana há dois milhões de anos. Um pouco da força descomunal que empurrou a terra toda para cima ainda está por aqui.

andando no topo do Monte Roraima

Às 11h15 chegamos ao topo, exaustos e encantados com o lugar. O solo é rochoso. Um jardim de flores estranhas e vigorosas parecem brotar das pedras. Pequenas poças d’água refletem o céu, ora azul, ora cinzento.

lá de cima, víamos assim o caminho feito nos dias anteriores...

Seguimos direto para o “Hotel do Índio”, reentrâncias escavadas pelo vento e a chuva na rocha, que formam abrigos bem colocados num paredão de frente para um abismo de onde se vislumbra lá embaixo a Sabana e toda a trilha que percorremos nos últimos três dias.

Tepui Matauí

Tepui Matauí

À frente e à direita, na mesma altura do Hotel, se vê o Tepui Matauí. Armamos nossas barracas dentro dessas reentrâncias. Este foi o hotel de cuja sacada a melhor vista já tive em toda a vida. Passamos o resto do dia ao redor do Hotel, apenas olhando, olhando, olhando a imensidão à nossa volta.

Tepui Matauí, visto de dentro do Hotel do Índio

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SEGUNDO DIA DE TRILHA

Dormimos muito bem. Estávamos exaustos, o que garantiu uma noite de hotel cinco estrelas, apesar do chão duro e da falta de espaço na barraca. Às cinco horas da manhã a claridade do dia acordou a todos. Tomamos um café reforçado, desmontamos as tralhas e às 7 horas estávamos andando. Deixamos o primeiro acampamento a 1.140 metros de altitude, baixamos para 1.040 logo na primeira hora. Após duas horas de caminhada cruzamos o Rio Kukenán, maior e mais caudaloso que o Tek. Atravessá-lo com as mochilas nas costas não foi tarefa fácil. Ficamos um bom tempo tomando banho no rio, nos preparando para o que viria pela frente. Do Rio Kukenán em diante foi só subida. Cada vez mais nos aproximávamos do Tepui Matauí e, à sua direita, majestoso, o Tepui Roraima.

Os Pemóns, índios da Gran Sabana, dizem que “coisas estranhas” acontecem no Tepui Matauí. A montanha é assombrada por espíritos maus. Dizem que o tepui é cercado por cães selvagens, que não deixam ninguém se aproximar. Segundo contam, havia na região três tribos em constante conflito: os Taurepáns, os Arekunas e os Kamarakotos, que formam a etnia Pemón. O Tepui Roraima era a montanha da celebração das vitórias nas lutas entre elas. O Tepui Matauí era a montanha onde iam os guerreiros derrotados. Humilhados, subiam o tepui e se deixavam morrer.

Tepui Matauí

Quanto mais nos aproximávamos no Monte Roraima, maior ele ficava. O caminho para chegar ao acampamento base, onde pernoitaríamos nesta noite, é uma trilha íngreme e pedregosa, com vegetação rasteira, típica da Sabana. Há muita erosão de chuva margeando a trilha. O clima muda drasticamente de uma hora para outra. Sol, chuva forte, sol, vento forte, neblina, um na sequência do outro na mesma manhã.

ao fundo, oTepui Roraima

Chegamos ao acampamento base, a 1.904 metros de altitude, às 13h30. O Monte Roraima está logo ali, na nossa cara. O paredão que o destaca do resto da Terra é impressionante. Vertical. Rocha avermelhada com duas fendas distantes uma da outra, por onde escorrem perenemente fios d’água. São os olhos da montanha. Custa crer que amanhã estaremos no topo. Por onde? A trilha sumiu.

acampamento base

Tomamos banho gelado numa corredeira formada por um dos olhos d’água, próxima ao acampamento. Aqui os mosquitos já dão uma boa trégua. Só os trilheiros vêm nos picar.

A temperatura caiu de 30 graus enquanto caminhávamos para 20 no início da noite. A Estrela Dalva apareceu no céu limpo, só para fazer uma graça. Daí uma hora chovia e nós dormimos na expectativa de um dia difícil amanhã.

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A CAMINHO DO MONTE RORAIMA

Saímos do hotel em Boa Vista numa Van às 5 horas da manhã. Rumamos para o norte pela BR174. O tempo estava horroroso. Nuvens muito pesadas e chuva forte durante toda a primeira hora da viagem. Na Van éramos 11 pessoas: o motorista, um dos guias e nove turistas, entre eles Mariana, Rita e eu.

O astral dos nove “expedicionários” foi melhorando depois que amanheceu. A última cidade brasileira por qual passamos antes de deixar o país foi Pacaraima. Alguns quilômetros à frente cruzamos a fronteira Brasil/Venezuela.  Trâmites facílimos, se comparados aos que enfrentamos na América Central. Do lado brasileiro, apenas carimbar a saída  no passaporte. Do lado venezuelano, apresentar o certificado de vacinação contra febre amarela e mais um carimbo no passaporte.

Chegada ao Parque Nacional Canaima

Às 10 horas estávamos em Santa Elena de Uairén, tomando café da manhã numa padaria da cidade. Santa Elena, capital da região de Gran Sabana, fica 15 km distante de Pacaraima. A principal atividade econômica da cidade é a extração de diamantes. Após o café, encontramos o segundo guia de nosso grupo, um rapaz forte, alto, mestiçado indígena, de nome Marcelo. Durante toda a expedição foi muito gentil, culto, preciso e oportuno na liderança do grupo.

Controle da entrada do Parque Nacional Canaima

Deixamos a Van e ocupamos duas Toyotas Land Cruiser com uns quinze anos de uso. Às 10h30 partimos por uma estrada vicinal que serpenteava pela Gran Sabana num chão de terra, sempre subindo. Cruzamos no caminho o Rio Kukenán, que se tornará nosso velho conhecido nos próximos dias da expedição. Quase duas horas mais tarde, chegamos na comunidade indígena de Paraitepuy, numa das entradas do Parque Nacional Canaima, um enorme parque, com cerca de 3 milhões de hectares, que protege os Tepuis da região, dentre os quais o Monte Roraima. Índios pobres, vivendo em choupanas e casas de barro ao redor, nos receberam. Vivem das expedições que passam por aqui. Na entrada havia turistas de vários continentes, alguns chegando como nós, outros voltando do Roraima.

aldeia no início da caminhada

Fizemos check-in na entrada do parque, pusemos a mochila nas costas e caminhamos 12 quilômetros até o primeiro acampamento. A altitude não variou muito. Partimos de 1100 metros e chegamos a 1.140, mas a trilha, aberta, era cheia de sobe-e-desce, o que torna tudo mais cansativo. Rumávamos para o leste. O sol descia às nossas costas. Ao longe víamos os Tepuis Matauí (ou Kukenán) e Roraima lado a lado, longínquos, se aproximando a cada passo, iluminados pelo sol poente.

muito chão pela frente…

Chegamos exaustos às margens do Rio Tek, um rio estreito e raso onde acampamos a primeira noite. No local, em volta de alguns casebres de barro cobertos por palha de buriti, montamos nossas barracas, sempre olhando para o Maatauí e o Roraima. Ainda deu tempo de tomar banho no rio junto com um exército de mosquitos famintos e jantar comida de acampamento. Às 20 horas, bajo un cielo estrellado, dormimos profundamente, como crianças cansadas.

primeiro acampamento, às margens do rio Tek