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MÉXICO

La Mesilla, fronteira Guatemala/México

Na cidade de La Mesilla cruzamos nossa décima-segunda e última fronteira, antes de entrar nos Estados Unidos: Guatemala/México. Foi um momento importante para nós. Finalizamos a etapa centro-americana da viagem e iniciamos a terceira e última: América do Norte.

Qualquer fronteira, seja ela de que natureza for, é sempre um espaço de tensões, diferenças, conflitos, transições. Nessa viagem cruzamos 12 fronteiras nacionais, gastando entre duas e três horas em cada uma com trâmites muitas vezes confusos e desnecessários. Os postos de fronteiras por onde passamos foram sempre um caos. Havia imigrantes, policiais, fiscais, cães farejadores, vendedores ambulantes, caminhoneiros, ônibus, lotações, batedores de careteira, despachantes, cambistas, tudo misturado, falando e andando para todos os lados. Os prédios eram sujos e mal cuidados. Não havia regras e procedimentos explicitados para orientar os viajantes. Tudo teve que ser descoberto na hora, um pouco na base da tentativa e erro. A burocracia e a ineficiência foram enormes.

San Miguel de Allende, México

Homens e mulheres povoaram a América. Muito tempo depois as fronteiras chegaram Em alguns sentidos, a vida piorou depois disso. Nauás, tamoios, guaranis, incas, aztecas, maias, navajos, apaches não conheciam fronteiras. Sonhamos com uma  América sem fronteiras! Sem barreiras impedindo as pessoas de encontrarem os lugares de sua felicidade.

Seguimos rumo norte pela região montanhosa de Chiapas, e passamos alguns dias na cidade de San Cristóbal de Las Casas. A uma altitude de 2.500 metros, as noites eram frias, para os padrões brasileiros, mas as pessoas nas praças, falando, cantando, dançando, aqueciam todo o ambiente.

Já percorremos mais de 12 mil quilômetros, passando por 12 países. A diversidade cultural e, sobretudo, geográfica é enorme. Entretanto, há uma coisa comum, que permeia toda essa viagem: a língua espanhola. É admirável e surpreendente. Argentinos, chilenos, peruanos, equatorianos, panamenhos, costa-riquenhos, nicaraguenses, salvadorenhos, guatemaltecas, mexicanos (para ficar apenas nas nacionalidades que conhecemos) falam a mesma língua. De fora parece óbvio, mas de dentro é um espanto. A Hispano-América se fragmentou em 19 nações. Abrange 12 milhões de quilômetros quadrados onde 400 milhões de almas expressam seus sentimentos em espanhol. Como conseguiram isso?

Plantação de agave, México

Deixamos San Cristóbal para trás e chegamos no fim de tarde em Oaxaca, depois de dirigir 9 horas por estradas estreitas, serras, passando pelo meio de pequenas cidades e vilarejos. A compensação foi a beleza das serras escarpadas e úmidas de Chiapas, as encostas secas cheias de cactos da região de Oaxaca, as cadeias de montanhas azuis da Sierra Madre. Esta é a terra da tequila e do mescal, feitos com a pinha de agave, plantados nas encostas das montanhas. Fomos parados para revista três vezes nesse dia pelo exército nacional. Os soldados, mal saídos da adolescência, com dificuldade em sustentar o peso de seus fuzis, abriam nossas malas à procura não sabemos do que. Possivelmente nem eles.

Costa atlântica, México

Oaxaca estava lotada de gente neste início de ano. Música em vários lados da praça central, pessoas andando, comendo, vendedores de tudo circulando por todos os lados na noite fria. Tomamos uma tequila com sal e limão e de repende ouvimos um arranjo mexicano de “garota de ipanema”. Este país é o máximo!

Seguimos subindo esse enorme país pela costa do Atlântico, dirigindo pela manhã e parando em pequenas cidades após o almoço, para retomar viagem no dia seguinte. Nesse passo preguiçoso chegamos a Nueva Laredo, fronteira com os Estados Unidos. A estrada estava linda, com sol forte e brilhante. Olhando pelo retrovisor ainda víamos a Puna argentina, o Deserto de Atacama, o costão peruano, a Avenida dos Vulcões no Equador, o Canal do Panamá, as matas virgens da Costa-Rica, o Lago Nicarágua… e assim entramos nos Estados Unidos, relembrando os odores e os sabores desse continente que ingenuamente imaginávamos descoberto por Colombo. Soy loco por ti, América!

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GUATEMALA

San Cristóban, Guatemala

Entramos na Guatemala por San Cristóban. Era ante-véspera de natal e a fronteira estava toda decorada com papais noeis, meninos jesus, reis magos e manjedouras para lá e para cá. Esse espírito parece que amoleceu nossos corações a ponto de nem nos importarmos com o velho conhecido processo de entrada/saída das fronteira centro-americanas.

Queríamos passar o natal em um lugar tranquilo e bonito. Fomos para Antígua, que por dois séculos foi a capital de toda a centro-américa espanhola, até que um terremoto destruiu metade da cidade em 1717. A população que era estimada em 60 mil habitantes naquela época, hojé é a metade disso. A cidade fica num vale cercada por três vulcões imponentes, a mais de 1.600 metros de altitude. A combinação de traços culturais e étinicos maia com o barroco espanhol dá um ar todo especial ao lugar.

No dia seguinte, fomos conhecer o Lago Atitlan, o mais profundo da centro-américa, considerado um dos mais belos do mundo. Em El Salvador soubemos um pouco da história da segunda mais longa e sangrenta guerra civil centro-americana. Aqui no Lago Atitlan descobrimos que a primeira da lista foi a Guerra Civil da Guatemala, que se extendeu entre 1960 e 1996, com um saldo de 140 mil civis mortos e 44 mil desaparecidos. Dentre eles, 300 maias que viviam no lago e até hoje estão sendo esperados por seus familiares.

A viagem ao lago foi longa, subindo uma serra interminável. Crianças estendiam as mãos à beira do caminho, acenando e pedindo doces. Chegamos a Tamajachel, na borda do lago e atravessamos de barco até San Pedro de La Laguna, do outro lado. Era dia de feira. Gente ocupando a rua toda, dezenas de barracas vendendo de tudo, animais, roupas, frutas, verduras. As mulheres usavam vestidos índios coloridos, os homens batas escuras. As pessoas conversavam num idioma que não compreendíamos. Na praça onde estava a igreja central havia uma referência a uma marcha pacífica de mulheres e crianças que saíram a pé daquele lugar rumo a uma base militar próxima num protesto contra o desaparecimento de seus maridos e pais durante a guerra civil. O protesto foi recebido à bala, em mais uma das atrocidades daqueles tempos.

Lago Atitlán, Guatemala

Passamos o resto do dia em San Pedro, atravessamos o lago no sentido inverso e voltamos para Antígua para nossa ceia. Anoitecia quando chegamos. O trânsito estava caótico. Era noite de natal e todos os automóveis, vans, ônibus do lugar, por algum motivo que desconhecíamos, saíram para as ruas estreitas da cidade ao mesmo tempo nessa noite especial. Só isso pode explicar o que víamos à nossa frente. De repente, num cruzamento perto do hotel onde estávamos, em um momento onde nenhuma regra de trânsito prevalecia, tornou-se impossível proseguir. Nada mais se movia. A ONÇA foi bloqueada por carros à frente, atrás e aos lados. Esses, por sua vez, eram bloqueados por outros, que eram bloqueados por outros.

Antígua, Guatemala

Travou! Não havia mais condições físicas para os veículos se locomoverem. Uma situação insólita, irreal se não estivéssemos vendo… e ouvindo as buzinas ensandecidas. As pessoas começaram então a deixar seus carros e pular os veículos na rua a caminho de casa. Muitos saíam pelas janelas, quando não havia espaço nem para abrir as portas. Foi o que fizemos. Fora nós, ninguém mais estava estressado. Todos ríam. Pareciam se divertir com aquilo. De repente começaram a soltar rojões. A cidade inteira soltando rojões. Talvez seja esse um costume. Sabe lá. Uma catarse coletiva, largar os carros na rua como que tirando dos ombros o peso de tudo o que foi vivenciado naquele ano e recomeçar aliviado. Deixamos a ONÇA no meio da rua e, pela primeira vez na viagem, tivemos a certeza de que ela não seria roubada naquela noite. Nossa ceia de natal foi inesquecível. Uma garrafa de vinho, um panetone, um banco na praça, estrelas, e um mosaico de carros entalados, num engarrafamento definitivo e final.

Nem tão final assim. Na manhã seguinte o encaixe começou a ser desmontado da única maneira possível: pelas beiradas. Aos poucos, os veículos na periferia do engarrafamento foram sendo retirados pelos seus donos, dando espaço para outras retiradas, e outras, e mais outras. Conseguimos liberar a ONÇA à tarde. O processo durou todo o dia. À noite as ruas voltaram ao normal. Vida nova.

Deixamos Antígua no dia seguinte, 27 de dezembro. Subimos rumo noroeste, passamos o ano novo na Sierra de Chaucus, sem engarrafamentos, e entramos no México.

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EL SALVADOR: O REGRESSO

Entramos pela segunda vez em El Salvador, desta vez de carro, em Goascorán. Os trâmites de fronteira foram a tortura de sempre. De lá seguimos para San Salvador, capital.

Há não muito tempo, El Salvador foi palco de uma das mais longas e sangrentas guerras civis da América Latina, terminada em 1992. De um lado, a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional, uma coalizão de cinco milícias de esquerda. De outro, um governo militar apoiado, adivinhem por quem, pelos Estados Unidos. Entre os dois, 75 mil civis mortos nos anos 80. As marcas desse conflito estão ainda em toda parte. No Museu de Arte de El Salvador, retratos doloridos desse período.

Os lugares de ricos e pobres estão bem demarcados na capital do país. Bairros sofisticados, com shoppings ao ar livre, restaurantes caros e gente bem cuidada andando em bonitos espaços de laser contrastam com uma periferia miserável e violenta e um centro feio, abarrotado de sacoleiros e barraquinhas com todo tipo de bugiganga chinesa. Qualquer semelhança com São Paulo e Rio de Janeiro é mera coincidência?

San Salvador, El Salvador

Tentamos passear pelo centro e conhecer a catedral da cidade, Iglesia El Rosario, mas não conseguimos chegar até ela. Estávamos a pé, indo em direção ao centro da cidade. Quanto mais nos aproximávamos do centro, mais a rua se congestionava de pessoas. Era a semana do natal, e muita gente comprava todo tipo de produtos dos vendedores ambulantes espalhados pela rua e pelas calçadas. Até que a uma quadra da igreja a rua e as calçadas estavam totalmente tomadas de gente a ponto de ser praticamente impossível governar nossos passos na direção escolhida. Algo comparável à estação Sé do metrô paulistano às 18 horas. Voltamos, a tempo de visitar o Museu Arqueológico Universitário, na mesma rua algumas quadras acima. Lá, uma pergunta procurava por respostas numa das salas: quem somos nós? O que nos caracteriza e diferencia El Salvador do resto do mundo?

No dia seguinte, após comermos feijão preto amassado, banana verde frita e ovo estalado (um café da manhã tradicional em toda a Centro-América), ainda passeamos pela cidade para depois seguir em frente. Paramos em Santana, uma cidade pequena em terras altas e montanhosas, a 100 quilômetros da Guatemala. Passamos nossa última noite em El Salvador no melhor hotel da cidade, antigo, grande e decadente, com escadas de mármore que denunciavam um passado de ostentação, e um restaurante escuro e quase vazio, onde jantamos e depois saímos para andar pelo centro. Partimos cedo no dia seguinte, rumo à Guatemala.

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HONDURAS

Eram seis e meia da manhã quando saímos de Esteli. Ainda se viam alguns bêbados pela rua. Cem quilômetros adiante chegamos à fronteira no Paso El Espino. Estávamos apreensivos com relação à reação das autoridades de Honduras. Em Costa Rica encontramos um brasileiro radicado na Guatemala, descendo de carro para o Panamá. Disse que foi hostilizado em Honduras. O seu país está causando embaraços para o nosso, policiais hondurenhos disseram a ele na fronteira. Mesmo portando visto, teve que esperar oito horas na fronteira até ser liberada sua entrada.

Era cedo e a Aduana estava relativamente vazia. O agente policial do controle de imigração pediu nossos passaporte, viu que éramos brasileiros, inspecionou nossos vistos, constatou que foram emitidos em El Salvador e se desculpou pelo transtorno que tivemos para obtê-los. Disse que felizmente estavam marcadas eleições para resolver o impasse dos dois presidentes que o país tinha naquele momento, e que após a posse do novo não mais exigiriam vistos de brasileiros. Depois disso, ele nos levou pessoalmente pela gincana de balcões, carimbos, selos e inspeções do processo de entrada, facilitando nossos trâmites. Pelo caminho, falou que tem uma filha, casada com um brasileiro, que mora em Manaus. Tem dois netos amazonenses, que conhece por fotografia apenas.

Em meia hora estávamos liberados. Custamos a acreditar no que acontecera. A fronteira mais temida por nós em toda a América Central foi a mais tranquila e civilizada. A América Central é mesmo imprevisível e surpreendente.

Não passamos nem um dia em Honduras. Cruzamos 170 quilômetros da fronteira com Nicarágua à fronteira com El Salvador em um estirão. Temíamos encontrar pelo caminho simpatizantes do governo golpista, sabe lá o que poderia acontecer. Um temor desnecessário, depois concluímos. Honduras foi o único lugar que rodamos sem nossa bandeira hasteada.

Estávamos em dúvida se levaríamos uma bandeira brasileira hasteada na ONÇA. Pensávamos que talvez fosse um exibicionismo desnecessário. Depois concluímos que foi bastante oportuno ter trazido nossa bandeira. Em primeiro lugar, ela tem sido um fator de aglutinação. Brasileiros radicados em muitas das cidades por onde passamos vieram até nós atraídos pela bandeira, nos cumprimentar, perguntar de que cidade éramos, contar suas histórias, seus sonhos, suas desilusões. Além disso, é surpreendente como a bandeira chama a atenção de moradores locais. Nesta viagem, quantos e quantos argentinos, chilenos, peruanos, equatorianos, panamenhos, costa-riquenhos, nicaraguenses acenaram para nós contando que estiveram no Brasil em tal ano, que têm um parente morando no Brasil, comentando algo sobre alguma celebridade brasileira, ou simplesmente gritando “Brasil, Brasil”. Foram incontáveis histórias saboreadas com prazer, como a de um argentino que fugindo da ditadura foi viver no Braz, onde vendia alho e cebola de porta em porta. Esses contatos com gente simples, alegre, comunicativa enriqueceram muito nossa viagem.

Na hora do almoço cruzamos a fronteira com El Salvador.

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NICARÁGUA

Chegamos tarde de volta a San José. Um pouco mal humorados com a situação vivida nos últimos dias. A princípio, ficaríamos alguns dias conhecendo a cidade, o Lago Arenal e seus vulvões ao redor; mas o mal humor modificou nossos planos. Pegamos a ONÇA e seguimos para a Nicarágua. Foram 290 quilômetros de estrada sem acostamento, cheia de caminhões lentos, pontes estreitas, até atingirmos a fronteira. O sol estava forte e a luz maravilhosa. À nossa direita, a cadeia de montanhas que percorre toda a América Central, à esquerda, de vez em quando avistávamos o Pacífico ao longe. Chegamos à fronteira com a Nicarágua na hora do almoço. O lugar era ainda mais confuso que as fronteiras anteriores. Filas de caminhões a perder de vista. Caminhoneiros acampados há dias esperando sua vez para a inspeção. Nossos trâmites foram mais tortuosos e complexos que os vividos na passagem do Panamá para a Costa Rica. Mas, já estávamos calejados. Tiramos de letra. Pensamos até em, quem sabe, um dia escrever o “Manual das Fronteiras Latino-Americanas”. Um passo-a-passo, ilustrado, com informações e dicas para o auto-turista aventureiro.

Nicarágua

Deixamos a fronteira para trás e tudo melhorou. Logo nos primeiros minutos apareceu o Vulcão Conception, ao lado de outro, o Madera, no imenso Lago Nicarágua. As vilas no caminho para Manágua, capital do país, são diferentes, com casas coloridas, muita gente na rua, bicicletas, mototaxis transitando para todo lado debaixo de um sol escaldante.

Manágua, Nicarágua

No fim da tarde entramos em Manágua. Para nós que vivemos com intensidade os anos 1970, é impossível não lembrar das imagens do ditador patrocinado pelo governo americano fugindo do país e da Frente Sandinista de Libertação Nacional entrando em Manágua. Em entrevista recente, um escritor nicaraguense que militou na FSLN descreveu assim o clima vivido naquele momento: “Nós nos sentíamos com o poder de varrer o passado, estabelecer o reino da justiça, repartir a terra, ensinar todos a ler, abolir os velhos privilégios, restabelecer a independência da Nicarágua e devolver aos humildes a dignidade que lhes havia sido arrebatada por séculos”. A julgar pelo que vemos, a batalha foi dura. Após uma guerra civil cruenta por quase uma década, e um embargo econômico imoral imposto pelos Estados Unidos, a Nicarágua segue como o segundo país mais pobre do continente americano e o segundo menor PIB do mundo.

Andar por Manágua foi uma experiência que desafiou ao limite nosso senso de orientação. As ruas não têm nome e as casas não têm número. Os endereços são ditos mais ou menos assim: de los semáforos, dos cuadras arriba, una cuadra al lago, casa esquinera. Neste ambiente é vital termos uma orientação geográfico-espacial, coisa que não é comum no Brasil. Depois de muito errar, conseguimos incorporar ao nosso vocabulário o modo como os locais se referem às quatro direções cardeais: al lago (para o norte, que é onde fica o Lago Xelotlán), arriba (para o leste, direção onde o sol sobe do horizonte), al sur (para o sul, essa é fácil), abajo (para o oeste, direção onde o sol desce no horizonte). Rodamos uns sete quilômetros dentro da cidade até chegarmos à Plaza de La Revolución, e de lá fomos a pé até a Laguna de Tiscapa, apenas para conhecer a enorme e bela estátua do General Sandino, o mais conhecido símbolo de Manágua.

Esteli, Nicarágua

Manágua não é propriamente uma cidade acolhedora e aconchegante. No dia seguinte partimos rumo norte para Esteli, a 100 quilômetros da fronteira com Honduras, onde passamos um dia. Um dia especial pois, por sorte, chegamos quando acontecia a grande festa do ano:  la fiesta patronale. Foi impossível conseguir um hotel. A cidade estava lotada. Desfiles com cavaleiros fantasiados, barraquinhas com comida espalhadas pelas praças, bandas, e uma multidão de todas as idades dançando nas ruas o dia todo. No final do dia, paramos a ONÇA numa praça periférica, armamos a barraca de teto e dormimos ao som das bandas ao longe. Saímos cedo para Honduras na manhã seguinte. Em nossa praça, bêbados dormiam felizes no chão.

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EL SALVADOR: A MISSÃO

O avião saiu no horário e depois de uma hora aterrizamos em San Salvador. O aeroporto fica no litoral e a cidade no pé das montanhas, a 47 quilômetros dali. Pegamos um taxi e às 8 e 45 estávamos na Embaixada de Honduras. Organizada, estremamente policiada e quase vazia. Preenchemos formulários de praxe, entregamos nossos passaportes e pagamos 30 dólares cada um a uma atendente num balcão. Depois de 30 minutos, recebemos os passaportes de volta com os vistos estampados. Válido por 30 dias para uma única entrada. Nem uma entrevista. Nem uma pergunta. Nem sequer um sorriso da atendente.

San Salvador, El Salvador

Com os vistos no bolso, voltamos para o aeroporto a tempo de pegar um vôo no mesmo dia de volta a San José. Apesar de termos cumprido nossa missão, nos sentimos miseráveis naquela tarde. Um maluco, respaldado por um punhado de poderosinhos locais e soldados truculentos,  tomou de assalto a palácio do governo e mandou o presidente, ainda de pijamas, para o exílio. Está certo que o presidente não era nenhum santo, mas há modos mais civilizados de resolver desavenças. E, dentre tantas consequências desse ato, uma delas, das menores, foi essa peripécia toda que tivemos que fazer para simplesmente poder transitar por míseros 140 quilômetros em Honduras. Este foi o visto mais caro do mundo.

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COSTA RICA

Como de costume, cruzar a fronteira foi uma tarefa difícil, um exercício de paciência e perseverança. Estávamos em Paso Canoa, cidade fronteiriça entre o Panamá e a Costa Rica. Uma pequena multidão de pessoas se aglomerava do lado panamenho, tentando atravessar. Ônibus chegavam a todo momento. Carros, motos, taxis, pessoas vindas a pé, chegando, chegando, chegando. Dezenas, talvez centenas de caminhões faziam fila para inspeção. Um garoto veio conversar e não se desgrudou de nós um só minuto nas mais de duas horas que passamos na fronteira. O menino nos levou de guichê em guichê no tortuoso labirinto do processo de saída/entrada. Ía nos instruindo enquanto carimbávamos os passaportes, preenchíamos guias de saída e de entrada da ONÇA, comprávamos selos de diversas naturezas, pagávamos impostos municipais, estaduais, federais. Depois, chamou o agente da Aduana, o agente do Ministério da Agricultura, o agente da polícia anti-tráfico e muitos outros agenes disso e daquilo para diferentes verificações na ONÇA. Todos conheciam o menino. Os fiscais, de verdade, não fiscalizavam nada. Ouviam o menino dizer que podia nos liberar, davam uma olhada no carro, meio de longe, trocavam algumas palavras conosco e assinavam nossos papéis. Por fim, o menino ainda nos levou a um lugar para a ONÇA receber uma ducha de algum suposto pesticida. O garoto era bem humorado e muito falante. Nos divertimos com ele. Contou que esse era seu trabalho. Morava alí perto, do lado panamenho, não tinha pai, passava fome, e, para ajudar em casa, todo dia ía muito cedo para a fronteira passar os gringos de um lado para o outro. Não é fácil seu ofício, disse. Tem muita concorrência. Muito garoto e pouco gringo para atravessar. No final do processo, depois do último carimbo e último selo, veio a fatura: dez dólares. Um roubo pedir pagamento por algo, a rigor, ilegal? Uma ninharia frente ao tempo que ele nos economizou? Errado estimular o subemprego de uma criança que deveria estar na escola? Correto ajudar alguém necessitado? Não soubemos avaliar. Pagamos o menino e fomos embora felizes por deixar aquele lugar e seguir viagem.

Menino no Parque Manoel António, Costa Rica

Logo de início, algumas coisas chamaram a atenção na Costa Rica. As estradas pioraram muito, buracos, uma quantidade enorme de caminhões, falta de acostamento. Apesar disso, a paisagem compensava. A partir de Paso Canoa, rodamos duzentos e cinquenta quilômetros atravessando florestas tropicais primárias, densas e exuberantes. Trinta e cinco porcento do território da Costa Rica é contituído por Parques Nacionais. Chegamos a Quepos, um destino popular no litoral sul, e logo fomos para o Parque Nacional Manoel António, uma reserva de mata tropical à beira do Pacífico. Passamos dois dias acampados no parque, numa praia cheia de coqueiros, árvores frondosas e muitas pedras vulcânicas. Fez sol forte durante os dias e lua cheia durante as noites. Nosso plano era ficar ali uma semana, mas tínhamos uma missão difícil pela frente.

Para subir de carro para os Estados Unidos, não há como não cruzar Honduras, pois esse país ocupa uma faixa contínua de terra do Atlântico ao Pacífico. Até aí, tudo bem. Cruzar países de carro tem sido nossa especialidade nas últimas semanas. Mas, o presidente hondurenho foi deposto num golpe militar poucos meses antes de sairmos de Campinas. Sem problemas. Golpes de estado não são eventos raros na América Latina. Mas o que complicou nossa vida foi que o presidente deposto, que estava no exílio, resolveu de repente voltar para Honduras durante a nossa viagem, e, deposto que estava, foi se abrigar justamente na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, capital do país. Consequentemente, para retaliar o apoio brasileiro ao presidente deposto, o governo golpista passou a exigir visto de entrada no país para brasileiros. Estávamos na Costa Rica quando soubemos disso. Evidentemente, não tínhamos esse visto e tínhamos que cumprir essa exigência se quiséssemos seguir viagem. Deixamos prematuramente o Parque Nacional Manuel António e fomos para São José, capital da Costa Rica, procurar a embaixada hondurenha para solicitar o visto.

A embaixada estava às moscas quando lá chegamos. Apenas uma funcionária informava que após o golpe os funcionários cortaram relações com o governo. Se alguém nos contasse não acreditaríamos. Um grupo de funcionários especializados em manter relações com outros países cortou relações com o seu próprio país!!! Incrível. A América Central é realmente surpreendente. Quando os diplomatas renunciam, quem faz diplomacia? Estávamos desolados. Nossa viagem corria o risco de terminar ali, na borda de Honduras. O que fazer?

Músico em San José da Costa Rica

Fomos então buscar uma luz na embaixada brasileira na Costa Rica. Falamos diretamente com o embaixador, figura simpática que nos atendeu muito bem. Ele nos disse que as embaixadas hondurenhas de toda a América Central estavam paralisadas porque não reconheciam o governo golpista. A situação era crítica. Apenas a embaixada hondurenha em El Salvador estava funcionando normalmente porque, por razões fortuítas, o embaixador hondurenho lá era amigo do presidente golpista. Então, se havia algum lugar onde poderíamos obter o visto, este lugar era El Salvador. Só que El Salvador fica DEPOIS de Honduras. Nos imaginamos chegando na fronteira com Honduras…

– Buenos dias, amigos. Passaporte si?

– Acá estan, señor.

– Ah,  Brasileños, e donde está el bisto de entrada?

– No lo tenemos, señor. Mas estamos indo aorita para El Salvador buscá-lo. Depues volveremos aca e entraremos nuevamente com los bistos, puede ser?

– Carajo! Están se rindo de mi?

Pois é, para pegar o visto tínhamos antes que cruzar Honduras. Para cruzar Honduras tínhamos antes que pegar o visto. Isto é o que chamamos de uma insolubilidade político-geográfica. Só se passássemos por cima de Honduras. E foi isso que fizemos. Pela segunda vez nesta viagem nos separamos da ONÇA. Ela ficou no estacionamento do hotel em San José e nós pegamos um avião para San Salvador, capital de El Salvador.

 

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PANAMÁ

Cidade do Panamá

Voamos de Quito para a Cidade do Panamá, onde chegamos tarde da noite. Não havia transporte público para o centro da cidade, que fica 30 quilômetros distante. Não havia informações. Conversamos com um policial que nos indicou um senhor para nos levar para o centro em seu próprio carro, por 30 dólares. Oferecemos 25 e ele aceitou. Viemos por caminhos escuros, periferia brava da cidade. Por alguns momentos pensamos que estávamos sendo sequestrados, levados para um terreno baldio, onde o pior estava para acontecer. Foi um  enorme susto. Juramos que nunca mais na vida tomaríamos um taxi pirata. O motorista corria feito louco e não falava uma só palavra. Estávamos totalmente em suas mãos. Apenas o rádio do carro quebrava o silêncio com músicas caribenhas entrecortadas por notícias policiais. Depois de uma hora de loucuras no trânsito, finalmente chegamos ao nosso hotel. No dia seguinte, logo cedo, iniciamos os trâmites para a retirada da ONÇA do Puerto Balboa, onde ela havia chegado há um dia.

Duas coisas nos chamaram a atenção na Cidade do Panamá. A primeira é a insegurança. Não fomos vítimas nem presenciamos nenhum ato de violência. Mas, parece que ela está ali, espreitando na próxima esquina. Há soldados armados até os dentes andando por todo lugar. As rádios noticiam crimes a todo momento. No hotel, os funcionários nos recomendam muito cuidado nas ruas, sair apenas com o mínimo necessário. Andar à noite, desaconselhado. Há seguranças particulares com escopetas nas portas dos supermercados. Os motoristas de taxi apontam lugares proibidos. Balas perdidas… Não fosse tudo isso muito familiar a nós, campineiros, estaríamos em pânico. Outra coisa que chama a atenção é o jeitão “Torre de Babel” que esse lugar tem. Para a sua sorte e o seu azar, o Panamá separa por apenas algumas dezenas de quilômetros os dois oceanos mais importantes do planeta. Por isso esse lugar atraiu tanto interesse e tanta gente desde o século XVI. Talvez a grande característica aqui seja a falta de característica. Africanos, asiáticos, europeus, americanos, todos deixaram suas marcas. E o que é de todos não é de ninguém.

A cidade é cheia de contrastes, como várias na América Latina. De um lado, a miséria, o desemprego, os cortiços, a violência. De outro, a sofisticação dos centros comerciais, dos shoppings centers refinadíssimos, dos prédios altos e imponentes da orla do Pacífico. Também há um ar nostálgico, caribenho, colorido nas ruas e no centro antigo, que lembra os anos 50. Encantador!

Cidade do Panamá

Conhecemos no sul da cidade as ruínas de Panamá Viejo, precursora da Cidade do Panamá, destruída por um ataque pirata no século XVI. Foi abandonada e a vida recomeçou alguns quilômetros ao norte.

É inverno no Panamá, o que significa chuvas tropicais rápidas, diárias, sol forte e calor úmido de 30 a 35oC. Este clima, contribuiu para as grandes epidemias de febre amarela, cólera e malária no passado, principalmente durante a construção da ferrovia e do Canal que ligam os oceanos. “Cidade pestilenta”, diziam.

Cidade do Panamá

O Canal certamente é estratégico para a economia do país. Passamos um dia conhecendo-o em detalhes. Uma passagem entre dois oceanos! Um sonho de muitos séculos, realizado ao custo de milhares de vidas de trabalhadores de todas as partes do globo. Encontrar uma passagem do Atlântico para o Pacífico é um sonho antigo. Em 1513 o aventureiro espanhol Vasco Núñes de Balboa, na costa atlântica do que seria hoje o Panamá, soube dos nativos locais que não muito longe dali, rumo oeste, havia outro oceano. Curioso, cruzou as montanhas do centro  da penísnula e no dia 25 de setembro daquele ano tornou-se o primeiro europeu a enxergar o Pacífico. A notícia se espalhou pela Europa e logo tentativas de encontrar um caminho navegável entre os dois oceanos foram feitas.  Em 1520, o português Fernão de Magalhães, a serviço da coroa espanhola, descobriu uma passagem no extremo sul do continente americano. Mas a viagem por ali era muito longa e arriscada, levando a que se propusesse uma abertura artificial entre os dois oceanos, onde as condições geográficas fossem as mais propícias. Nascia o sonho do canal.

Cidade do Panamá

E as melhores condições geográficas para a empreita estavam no Istmo do Panamá, a relativamente estreita porção de terra que liga a América do Sul à América do norte. Mais precisamente, o melhor lugar para construir o canal ficava na altura da Cidade do Panamá, onde a distância que separa os dois oceanos é de cerca de 80 quilômetros. Ao final do século XIX essa região se insurgiu contra a Colômbia, da qual fazia parte, e tornou-se um estado independente em 1903. Isto é, mais ou menos independente. Na luta pela independência os rebeldes panamenhos foram apoiados pelos Estados Unidos, que sonhavam em controlar economica e militarmente a passagem entre os dois oceanos. Os americanos afrontaram diplomática e militarmente a Colômbia, em troca da concessão panamenha para terminar a construção do canal (que havia sido iniciada por uma equipe francesa) e do arrendamento de uma faixa de terra ao seu redor. E foi o que aconteceu. Os Estados Unidos terminaram a construção do canal em 1913 e controlaram todo seu funcionamento desde então. Apenas no último dia do século XX o Panamá recuperou a soberania sobre o canal e seu território.

É nítida da presença americana na Zona do Canal; bairros inteiros, culinária, palavras faladas na rua, nomes de praças, monumentos… Até hoje a moeda local é o dolar americano. A obtenção da soberania sobre o canal aparentemente não melhorou a vida do panamenho comum. Ouve-se em todo lugar que a vida piorou depois que os “gringos” foram embora, não porque eles eram bons, mas porque o governo local é ainda pior.

Cidade do Panamá

Os trâmites para a liberação da ONÇA em Puerto Balboa demoraram dois dias. Vencida uma buro-corrupto-cracia infernal, ela finalmente saiu do “contenedor” ávida por novas aventuras. Caiu na Ruta Panamericana e zuniu rumo norte.

Começou enfim a etapa centro-americana de nossa viagem. Chovia torrencialmente quando deixamos o porto. Entramos pelo “interiorzão” do Panamá. Rodamos muito naquele dia. A paisagem  continuou a mesma, mata tropical úmida, planície, um calor de 39 graus centígrados, amenizado apenas por pancadas de chuvas fortes e rápidas. Mas a paisagem social mudou radicalmente. Os shopings centers sofisticados e os becos do centro alvejados de balas perdidas de favelas adjacentes ficaram para trás. Por aqui, pequenas cidades do interior, movimentadas por gente andando em bicicletas, em lombo de burros, em ônibus lotados pelas ruas sombreadas e estradas estreitas.

Paramos em Santiago de Verágua, apenas para dormir, em um hotel muito conveniente à beira da Ruta Panamericana. Aproveitamos para arrumar a caçamba, reorganizar a bagagem e deixar tudo pronto para essa nova etapa da viagem. Tomamos cerveja local e jantamos peixe no restaurante do hotel, servido por senhoras idosas e bem humoradas. No dia seguinte continuamos subindo a Panamericana e cruzamos a fronteira com a Costa Rica em Paso Canoa.

 

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EQUADOR

Entramos no Equador pela cidade de Huaquillas. Os trâmites foram difíceis. A primeira dificuldade foi encontrar a Aduana. Entramos pela “ponte nova”, vindos de Zurumilla, no Peru. Mas a Aduana fica na “ponte velha”. Foram horas de desacerto procurando essa ponte. Não havia uma placa sequer indicando um lugar tão obviamente procurado. Conversamos com muita gente atenciosa nas ruas, pedindo informações. Mas a comunicação estava particularmente difícil naquele dia.

Não falamos espanhol com fluência, nem o pessoal aqui entende português. Mas, além da barreira do idioma, tem outras dificuldades que às vezes emperram nossa orientação pelas ruas. Uma delas, que custamos a perceber, é que as palavras “derecha” e “izquierda” nem sempre querem dizer direita e esquerda como entendemos no Brasil. Em cerca de 40% das vezes que nossos interlocutores nos mandam virar para a “derecha”, na verdade devemos ir para a esquerda. Apelidamos essa direção de “la otra derecha”. Tem também “la otra izquierda”, esta curiosamente menos frequente (uns 20% de incidência, em nossa estatística). Uma boa dica é olhar para as mãos da pessoa. As mãos não erram. Se o hermano nos manda para a “derecha” e aponta para a esquerda, é para lá que temos que ir. Para melhorar nossa vida, criamos o FCD, fator de correção de distância, estimado aqui no Equador como em torno de 2,5. Se dizem que fica duas quadras adiante, pode esperar que são mais ou menos cinco. Se dizem que faltam quatro quilômetros para chegarmos, faltam uns dez. E assim vai.

Depois de muito desatino pelas ruas e ruelas de Huaquillas, finalmente encontramos a ponte velha. Mas cadê a Aduana? Não existe uma placa dizendo coisas óbvias, como “Bienvenido a Ecuador”, contendo instruções para os trâmites de imigração. A ponte velha é uma estrutura de cimento e ferro que liga a balbúrdia peruana à desordem equatoriana. Uma multidão circula caoticamente pela ponte. Crianças empurrando carrinhos de mão cheios de frutas, moto-taxis, animais, vendedores ambulantes, músicos, trocadores de dinheiro, soldados, batedores de carteira, carrinhos de comida se movimentando em todas as direções.

Deixamos a ONÇA no meio-fio e saímos procurando. Avistamos uma portinha com um policial fardado na frente e desconfiamos que era ali. E era! Encontramos. Mas o guarda não conseguia entender o nosso caso. Um carro, do Brasil, entrando no Equador, e que não iria voltar por ali. Além disso, ele não conseguia  registrar os nossos dados no sistema de informações recentemente computadorizado da Aduana. Quando entrava a marca e o ano da ONÇA não havia o modelo correto. Tentamos “enganar” o sistema (foi sugestão do guarda) colocando outro modelo, mas aí o tal sistema não aceitava o número do chassi. O sistema também queria saber por qual estrada sairíamos do país, mas a ONÇA sairá por um porto. Desnecessário dizer que essa opção não existia no sistema.  Depois de uma hora e meia tentando várias alternativas, fomos registrados como um Jeep 1992 sem modelo especificado, chassi desconhecido, que sairá do país pela Colômbia. Finalizado o processo, o guarda gravou os dados num pen-drive e saiu a pé para a cidade a procura de um lugar para imprimir o documento gerado. Uma hora mais tarde voltou sorrindo com duas folhas impressas, nos entregou, e, como sempre, “buena viaje”. No início essa situação toda gerou muito estresse. Mas depois de algum tempo relaxamos, esquecemos nossos planos para o dia e começamos a nos divertir com essa experiência surrealista.

A boa notícia do dia foi o preço do diesel. Convertido em reais, o litro custava 40 centavos. Mas junto veio a má notícia: não tinha. O combustível estava racionado no país. Andamos por vários postos com o ponteirinho na reserva e o coração na mão, até que encontramos uma fila imensa na frente de um posto com combustível. Abastecemos. Ôh dia complicado esse! Resolvemos passar a noite em Huaquilla mesmo e seguir viagem no dia seguinte.

Na manhã seguinte partimos para Guayaquil. Foram 190 quilômetros de uma estrada muito movimentada, pista única, ladeada em boa parte por imensos bananais. Guayaquil é uma cidade grande e moderna, se comparada a outras equatorianas. Sua maior atração é o Malecón, um parque com jardins e atrações populares com cerca de 3,5 quilômetros de extensão à margem esquerda do Rio Guyas. Nele, pobres e ricos passeiam lado a lado por praças, quadras esportivas, lojas de artesanato, cinemas, museus, sempre de frente para o enorme rio. O Malecón chega até a ponta da foz do Guyas, onde ficava um grande forte que protegia a cidade contra piratas. Hoje o forte é um centro preservado que conta parte desta história. O prato feito é bom e barato e a cerveja deliciosa na beira do rio.

A fronteira entre a América do Sul e a América Central é uma área não muito grande de floresta densa e terra alagadiça, chamada Dárien Gap, que une a Província de Dárien no Panamá à Província de Choco na Colômbia.  Pouquíssimos aventureiros no mundo cruzaram o Dárien Gap de carro ou moto. Não existe um caminho trafegável cruzando essa região. Consequentemente, não há como sair de carro da América do Sul e chegar na América Central. Para o motorista obstinado, as opções viáveis são embarcar o carro do Equador ou da Venezuela para o Panamá.

embarque da ONÇA em Guayaquil

Nossa grande tarefa em Guayaquil era embarcar a ONÇA para a Cidade do Panamá. Este foi um lento e burocrático processo. Imaginávamos que chegaríamos em um balcão de uma transportadora marítma e resolveríamos tudo ali. Engano. Simplificando a estória, tivemos que contratar uma agência despachante, que preparou uma série de documentos, inclusive, com nossa ajuda, uma lista descrevendo, em espanhol, tudo o que havia dentro da ONÇA. Depois disso, solicitamos à polícia equatoriana um documento descrevendo nosso “histórico de entradas” no Equador. Esse foi um papel timbrado simplesmente dizendo que entramos no país uma única vez, no dia tal, e nos encontramos até o presente no país. Para que isso? Nunca soubemos. De posse de todos os documentos, levamos a ONÇA para um terminal de transportes, onde ela foi colocada num container e enviada para um pátio da polícia equatoriana. Lá, ela foi retirada do container, inspecionada minuciosamente pela polícia anti-narcóticos (com cães farejadores), recolocada no container e enfim enviada ao convés do navio de carga contratado. O processo todo durou 7 dias úteis.

Deixamos a ONÇA no convés do navio e seguimos de mochila para a cidade de Cuenca. Tínhamos alguns dias de folga e aproveitamos para conhecer um pouco do Equador. Para chegar a Cuenca, subimos uma serra escarpada, que chegou a 3.800 metros de altitude. O ônibus, velho, apinhado de gente, serpenteou por pequenos povoados encrustrados em vales e canions profundos. As montanhas são verdes, cobertas de vegetação. A paisagem lembra um pouco as terras altas da Mantiqueira, diferente dos caminhos montanhosos por onde passamos na Argentina, Chile e Peru, onde só havia areia e pedras nas encostas. A estrada era ruim. Não deu para saber se era asfaltada com longos trechos de terra, ou de terra com alguns trechos de asfalto. Mas o melhor cenário estava dentro do ônibus. Mães com crianças de todas as idades, trabalhadores braçais carregando enxadas e outros instrumentos de trabalho, idosos trajando roupas tradicionais e muito coloridas, todos conversando alto entre si, animadamente. Um homem carregava um porco assado inteiro, pendurado em um gancho que ficou amarrado no porta-malas, isto é encima do capô do ônibus. Finalmente chegamos à praça central de Cuenca, 2.700 metros de altitude. Esta é uma típica cidade colonial, com sua Praça de Armas central ostentando casarios que um dia serviram a autoridades administrativas e religiosas espanholas. Ficamos alguns dias em Cuenca e seguimos numa van com alguns turistas de várias nacionalidades rumo a Quito, capital do Equador. Seguimos pela assim chamada Avenida dos Vulcões: um longo vale incrustrado nos Andes, de onde se podem avistar dezenas de vulcões, entre eles os famosos Chiborazo e Cotopaxi (as duas mais altas montanhas do Equador, com 6.268 e 5.897 metros de altitude, respectivamente, ainda em atividade). Esta é uma região para grandes caminhadas, ar rarefeito e fresco e muita contemplação. Ficaríamos semanas por aqui. Mas, infelizmente, a ONÇA já estava no Pacífico. Tinhamos um encontro com ela em alguns dias, o que apressou nosso passo.

Avenida dos Vulcões

Apenas pernoitamos num vilarejo no meio do caminho para chegar no dia seguinte a San Francisco de Quito, ou, simplesmente, Quito, a capital do país. Grave e majestosa são dois adjetivos que se aplicam a essa que foi a primeira cidade do mundo a ser declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. A segunda mais alta capital do planeta, com mais de 2.800 metros de altitude, Quito é realmente deslumbrante, uma jóia encrustrada nas montanhas. Sua beleza fez com que seja conhecida por vários superlativos. Florença da América, pela riqueza de seus museus e templos. Luz da América, por ter incubado movimentos rebeldes que contribuíram para a transformação de algumas colônias espanholas em países independentes. E tantos outros …da América. O lado grave, um pouco escuro, nevoado e pesado da cidade contribuiu para que ela seja também chamada de A Cidade das Lendas. Uma delas fala do padre Manuel Almeida, que aos 17 anos renunciou a toda a sua fortuna e se ordenou noviço no Convento Seráfico de Quito, onde seguiu carreira monástica. Apesar de ter renunciado a todos os seus bens, não renunciou à vida boêmia que levava. Durante anos, escapava todas as noites do convento, e passava a noite tocando violão em festas pagãs. Para tanto, fugia através de um alçapão no teto da capela principal, escalando uma grande escultura de Jesus Crucificado, subindo nos ombros do Próprio e pulando para agarrar a passagem no teto. Numa das noites, Jesus abriu os olhos, se virou para o padre boêmio, que já estava em seus ombros se preparando para pular no alçapão, e perguntou solene:

– Hasta quando, Padre Almeida?

O padre se assustou mas não perdeu a compostura. Respondeu respeitosamente:

– Hasta la vuelta, señor!

E pulou alçapão adentro para cair em mais uma noite de orgia.

Dentre tantas características, Quito tem também o privilégio de ser “visitada”  pela linha do equador, que passa alguns quilômetros ao norte do centro da cidade, num lugar chamado pelos locais de La Mitad Del Mundo. Um pedaço de terra é apenas um pedaço de terra, mas quando é cruzado pelo equador ganha um significado diferente. Existe lá um enorme monumento que marca Latitude 0 00 00, onde pessoas em hemisférios diferentes podem se tocar e conversar frente a frente alegremente.

Deixamos Quito com uma sensação que voltaríamos em breve e voamos para a Cidade do Panamá para encontrar a ONÇA e seguir viagem.

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PERU

Não adiantou chegar cedo à fronteira Arica (Chile) / Concordia (Peru). O expediente  só abria às 8 horas. A passagem consumiu exatas duas horas e trinta e cinco minutos. Do lado chileno foram apenas dois carimbos. Mas, do lado peruano ganhamos oito carimbadas diferentes em nossos papéis. Tivemos que tratar com agentes da aduana, do exército, da agricultura, da saúde, do trânsito, etc. O que mais demorou foi retirar todas as caixas da caçamba e passá-las por um escâner que ficava em um prédio longe do estacionamento. Depois, nos fizeram abrir as mochilas para revista. O laptop teve que ser declarado em formulário próprio. O driver externo foi declarado em outro formulário. A caixa de peças de reposição da ONÇA causou o maior dos embaraços nesse embaraçado processo. Os guardas não sabiam o que fazer com aquilo. Não sabiam se abriam mais um formulário ou se confiscavam a caixa toda alegando que era contrabando de peças para revenda no país. Depois de várias consultas entre si, deixaram quieto. A caixa entrou sem formulário e sem carimbo!

Arequipa

Vencida a batalha da fronteira, seguimos para Arequipa, 400 quilômetros rumo noroeste. Logo notamos que estávamos em outro país. O povo tem traço  mais andino, menos “europeu” em relação ao Chile. Também parecem ser mais comunicativos, falantes, coloridos, barulhentos. As cidades são mais desorganizadas do que as de mesmo porte por onde passamos na Argentina e no Chile, com barraquinhas de comércio miúdo espalhadas por todos os cantos. Mas talvez o que mais chame a atenção de quem entra de carro no Peru vindo do sul seja o trânsito.

Passamos vários dias no Peru, rodando por estradas, trilhas, e pequenas, médias e grandes cidades. Dirigir aqui é uma experiência de tirar o fôlego. Nas cidades, as ruas são tomadas por multidões de pequenos taxis, mototaxis e lotações apinhadas de gente rodando em todas as direções e buzinando alucinadamente sem motivo aparente. Parece que a única comunicação existente entre motoristas e os demais seres do planeta se dá por meio das buzinas. Sem nenhuma sinalização prévia, carros cruzam da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, invertem o sentido do trajeto e buzinam, buzinam, buzinam. A maioria dos cruzamentos não tem semáforos. E quando existem, a luz vermelha é apenas uma sugestão de parada. Os pedestres não têm vez, e as faixas de pedestres, ha ha ha… A noção de preferencial não existe. Nos cruzamentos negocia-se meio por telepatia quem entra e quem espera. É interessante que a gente acaba aprendendo esse jogo. No começo ficávamos paralisados, em pânico, diante de um cruzamento. Depois de alguns dias, fomos nos soltando, e, de repente, pronto, a gente entrava no meio da confusão caótica de carros, motos e microônibus e participava do jogo.

No primeiro dia, foi um estradão só até Arequipa. Chegamos no final da tarde. A cidade é alta (cerca de 2.400 metros acima do nível do mar), enorme e sem sinalização. Depois de Lima, é a maior do país, com um milhão de habitantes. É circundada por três impressionantes vulcões: Misti, Pichu Pichu e Chachani, avistados de todos os lugares. Entre a periferia e o centro histórico, um oceano de ruas, carros e gente. Andar pelo centro de Arequipa compensa qualquer dificuldade em chegar até ele. Aqui a cidade é branca, contruída com pedras vulcânicas claras, chamadas sillar. Os tons claros conferem um aspecto austero e elegante ao lugar.

A Plaza de las Armas é imponente, com sua majestosa catedral espanhola, prédios com arcos ao redor. Particularmente naquele dia havia uma festa de final de ano das escolas. Famílias enormes, cheias de crianças e idosos vestidos com roupas de festa, se espalhavam pelas calçadas ao redor da igreja, pelas escadarias dos prédios públicos e jardim da praça. Passamos horas sentados num banco de pedra, vendo o movimento, andando por ali, tirando fotos. No começo da noite, de um terraço donde se avistava as torres da catedral, comemos um maravilhoso e confiável ceviche.

O Mosteiro de Santa Catalina é experiência a parte, uma verdadeira cidade dentro da cidade, onde várias gerações de monjas católicas viveram em claustro por 370 anos. Silêncio é o que se lê na praça central do mosteiro, onde freiras em silêncio passavam o dia lendo o evangélio. As estórias dessas mulheres que viveram por séculos nesse lugar são impressionantes.

Cañon Del Colca

Esquadrinhamos Arequipa em alguns dias e partimos rumo noroeste. Cerca de 170 quilômetros adiante, entramos num dos mais profundos cânions do planeta, chamado Cañon Del Colca, que numa extensão de 100 quilômetros chega a atingir 3.400 metros de profundidade. O caminho é belíssimo. Rodeamos escarpas, atravessamos uma reserva ecológica cheia de guanacos e vicunhas ao redor de pequenos lagos chamados aguadas blancas. Subimos até 4.890 metros de altitude e rodamos uma hora acima dos 4.300, até iniciarmos a descida para Chivay, a vila maiorzinha da região, no fundo do vale, a 3.750 metros. Ao redor, pequenos vilarejos à beira deste vale, cujas encostas são recortadas por terraços construídos há 2.000 anos, pelos povos Cabanas e Collaguas, para armazenar grãos e coletar água.

menina no Cañon del Colca

Passaríamos uma eternidade neste vale, pastoreando llamas e alpacas, contemplando o vôo dos condores que saem dos picos nevados, vendo a lua nascer detrás das montanhas, convivendo com homens e mulheres que arrancam da terra sua sobrevivência. Mas a viagem tem que continuar e após alguns dias seguimos para o litoral. Pegamos novamente a Ruta Panamericana e continuamos subindo  margeando o Pacífico.

A descida para o litoral talvez tenha sido o trecho mais deslumbrante da viagem até aqui. Pista única. À esquerda um costão de pedras vulcânicas, escarpas altíssimas e praias desertas. À direita altas montanhas e vulcões extintos.  À frente o jeito peruano de dirigir, que torna tudo mais “emocionante”. Ultrapassam na faixa contínua, entram na estrada sem sinalizar, param na pista, e buzinam, buzinam, buzinam. Curiosamente, não há brigas nem animosidade no trânsito. Ninguém parece se incomodar com esses sobressaltos e riscos constantes.

Praia

Rodamos rumo norte vários dias, sempre tendo o Pacífico à nossa esquerda. O vento que vem do mar inunda a pista de areia. Há trechos onde o asfalto some. Durante o dia dirigíamos. Ao entardecer acampávamos nas praias desertas e de águas geladas do Peru. Muito espaço, privacidade e vista para o mar. Não há cinco estrelas que superem nossos acampamentos na areia. A rotina foi quebrada apenas quando cruzamos Lima. Só quem já tentou sair de São Paulo numa sexta-feira, fim de tarde, com chuva e véspera de feriado imagina o que é cruzar essa cidade de sul a norte.

Um dia e uma noite em Lima nos levaram por encanto e acaso a nos hospedar na casa de Victor Delfin, artista plástico peruano que vive num casarão belíssimo no alto da encosta, no bairro Barranca, onde aluga alguns quartos para viajantes. Do jardim, cheio de esculturas sedutoras, vê-se o Pacifico. Os cômodos e salões são repletos de quadros e esculturas vibrantes, coloridas, criadas por ele ao longo da vida.

 Saindo de Lima  voltamos à rotina dos acampamentos na praia. Sempre iguais e sempre diferentes. Por fim chegamos a Trujillo, cidade litorânea, a terceira maior do Peru. Esta cidade tem alguns tesouros arqueológicos. O mais deslumbrante é uma cidade de adobe, Chan-Chan, que aos poucos tem sido desenterrada desvelando a vida na época pré-incaica. São rendilhados de argila rodeando os lugares sagrados de um povo que vivia da pesca. Após alguns dias conhecendo a região de Trujillo, deixamos o país pela fronteira Zarumilla (Peru) / Huaquillas (Equador).

Arrozal ao longo da costa

Cruzamos o Peru de sul a norte. Da fronteira com o Chile à fronteira com o Equador, rodamos 3.099 km, em 47 horas de direção. Não foi muito tempo. Mas a experiência foi tão intensa que saímos com uma boa noção desse adorável país. Rodamos por montanhas altas e geladas, vales e canyons profundos, desertos enormes e mar, muito mar. E o povo, é ainda mais bonito que as paisagens. Faltou a amazônia peruana. Fica para a próxima. Como disse um peruano que se tornou nosso amigo, os olhos ficam pequenos em meio a tanta beleza.

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CHILE

Entramos no Chile, vindos de San Antônio de los Cobres, pelo Paso de Sico, fronteira um pouco acima de quatro mil metros de altitude. Caminho de rípia. Não há controle aduaneiro do lado chileno. Apenas uma placa cruzando a estrada nos atesta que entramos em outro país. A paisagem continua a mesma. Estamos no deserto do Atacama, o lugar mais seco do planeta, onde o solo é praticamente estéril devido à baixíssima umidade. Dentro da ONÇA, o higrômetro marcava 10% de umidade relativa do ar. Do altiplano sobressaem montanhas e vulcões por todos os lados. O solo, quase totalmente descoberto, tem vários tons de vermelho, amarelo e branco. Grandes manchas – formadas por sal, areia e lava vulcânica – se estendem por quilômetros, como grandes planícies brancas – os salares. O céu é azul turqueza forte. A vegetação se limita a poucos arbustos raquíticos e teimosos, espalhados aleatoriamente na terra árida. Viajamos em altitudes de 4 a 4,5 mil metros sob um sol forte e vento frio.

Igreja no Deserto de Atacama

Essa inóspita região foi um centro estratégico para a economia dos países andinos no passado. Além de possuir importantes jazidas de cobre, extraía-se salitre dessas montanhas, uma mistura de nitrato de sódio e nitrato de potássio. Mistura criada no inferno, disse uma vez o escritor José Saramargo, tão dura era a vida dos milhares de homens, chilenos, argentinos, bolivianos e peruanos que aqui trabalhavam, onde a temperatura chegava a variar de 30 a -30 graus centígrados em um mesmo dia. O nitrato era matéria prima para a fabricação de fertilizantes e explosivos, fazendo crescer também o interesse de potências européias na região. No final do século XIX o Chile era o único país produtor de salitre em todo o mundo, e esta era sua principal fonte de divisas.

Começamos a descer. Margeamos longitudinalmente por dezenas de quilômetros o Salar de Atacama, imensa mancha branca no deserto, até chegarmos a San Pedro de Atacama, a 2400 metros de altitude, na Província de Antofagasta.

No final do século XIX, num conflito conhecido como Guerra do Pacífico, o Chile, país com melhor potencial econômico e bélico da região, financiado pela Inglaterra, atacou por terra e por mar o Peru e a Bolívia, com quem disputava o controle da região. O Peru perdeu parte do sul do seu território, a região de Tarapacá, no conflito para o Chile. A Bolívia perdeu a região de Antofagasta, sua única saída para o mar. Para os bolivianos, até hoje essa é uma questão dolorosa. Muitos dos problemas do país são atribuídos à falta de acesso ao mar. Nas últimas décadas, todos os presidentes bolivianos, inclusive Evo Morales, tiveram em suas plataformas políticas a retomada de negociações com o Chile para reaver o território perdido, objetivo esse inscrito na Constituição do país.

Flamingos no Deserto de Atacama

San Pedro é um oásis, em vários sentidos. A canalização de água que escorre de montanhas vizinhas transformou a terra esturricada em solo relativamente fértil. Numa cidade onde não há registro de chuva no último século, árvores de médio porte e arbustos estão presentes por todo lado. A cidade é uma Babel, com mochileiros falando em idiomas de todos os cantos do mundo, andando em procissão pelas suas ruas estreitas. Embora o ambiente geográfico seja parecido com o da cidade de Humahuaca, onde passamos alguns dias muito tranquilos, aqui o ritmo é de um acampamento base, apoiando andinistas em busca de aventuras na região. E aventura é o que não falta. Picos escaláveis em vários níveis de dificuldade, cadeias de montanhas com vulcões de água quente, vales com paisagens lunares, povoados indígenas isolados… poderíamos ter ficado aqui algumas semanas. Mas a viagem tem que continuar e seguimos.

Estíma-se que havia 40 mil trabalhadores nas minas de salitre nesta região, no início do século XX, dos quais 13 mil eram peruanos, bolivianos e argentinos. Esses trabalhadores moravam em abrigos das mineradoras, cujas condições de saneamento eram deploráveis. Àquela época, as mineradoras pagavam seus trabalhadores mensalmente com um punhado de fichas emitidas por elas mesmas, que só podiam ser descontadas em seus próprios armazéns e vendas.

Ruta Panamericana

Seguimos rumo norte. O deserto ao norte é ainda mais desolador. A paisagem achata, não se vêm mais as montanhas. Guiamos por centenas de quilômetros pela Ruta Panamericana ladeados por areia e pedras. Vento forte lateral.

Em 10 de dezembro de 1907 eclodiu uma greve na salitrera de San Lorenzo, que logo se espalhou para a salitrera de Alto San Antônio e várias outras na região de San Pedro de Atacama. Foi apelidada de a greve dos “18 pence” (18 centavos de libra esterlina) pois essa era a principal reivindicação dos grevistas: já que as mineradoras recebiam em libras pelo salitre bruto que eles extraíam, nada mais justo que pagarem a eles também em libras, e não em fichas.

De repente, uma surpresa. A Ruta Panamericana cruza o Rio Loa, no pequeno povoado de Quillagua, província de Tocopilla. Aqui o rio forma um oásis, esse sem o borburinho turístico de San Pedro de Atacama. Se para nós não é comum cruzar um deserto; cruzar um oásis no deserto foi uma experiência singular. Paramos, respiramos fundo, parecia que sentíamos a umidade entrando por todos os poros. Árvores de médio porte, arbustos, capim, hortaliças cultivadas, muitos animais, burros, cavalos, llamas, cachorros. Conversamos com moradores locais. Disseram que uma mineradora quilômetros acima está poluindo e desviando a água do rio. A única fonte de vida da cidade está sendo roubada. No Chile a água é propriedade privada, e não um recurso público, e a mineradora é a dona da água…Um morador se recorda que nos últimos quarenta anos, raramente choveu. Isto é, raramente fez que ía chover. A nuvem vertia água mas essa se evaporava antes de chegar ao solo. Bebemos água e partimos. Sempre para o norte, após 450 quilômetros de estrada, e ainda no deserto. Chegamos a Pica, uma cidade pequena e surpreendente, ao pé da cordilheira, 1.350 metros de altitude, na província de Iquique, região de Tarapacá. Pica tem 250 hectares irrigados com água que corre das montanhas, onde se planta laranja, limão, manga e goiaba. A cidade não parece ser pobre, mas isolada. Há muitas casas coloridas, com pomares nos quintais. A escola é grande e bem conservada. À noite, moradores com notebooks circulavam pela praça bem cuidada. A praça é wi-fi zone, gratuita. Alugamos por um dia uma pequena casa mobiliada, pelo preço de um hotel barato. Indicação de um morador na praça wi-fi. Passamos num supermercado e garantimos um bom vinho Tarapacá, não apenas nacional, mas também local. Preparamos um jantar como há muito não fazíamos e comemos num simpático jardim de inverno, virado para o quintal grande. A cidade adormeceu cedo e nós dormimos também. Um detalhe importante: a porta da casa não tem chave. Basta encostar. Calle Cordel, 270. Esse foi nosso endereço em Pica.

Em 18 de dezembro de 1907 milhares de trabalhadores em greve marcharam para Iquique, portavam bandeiras do Chile, Bolívia, Peru, Argentina. Queriam que o governo da província mediasse as negociações com as mineradoras. Os trabalhadores se alojaram na Escuela Domingos de Santa Maria, nos arredores de Iquique.

Ao deixarmos nossa casa alugada no dia seguinte, descobrimos que Pica é um balneário que atrai moradores da região. Encontramos várias piscinas públicas cheias de gente se divertindo. Ônibus com banhistas circulam pelas ruas. No deserto, brincar com água é a maior diversão.

Em resposta aos mineiros grevistas, o governo da província, com respaldo do governo central, cercou a escola em 21 de dezembro de 1907 e ordenou que todos retornassem aos seus postos de trabalho. Não foram atendidos. O comandante da tropa então liberou o massacre. Primeiramente, a escola foi bombardeada com conhões. Depois, a tropa invadiu e metralhou os sobreviventes. Mulheres e crianças não foram poupadas. Mais de 3 mil pessoas foram assassinadas cruelmente naquela tarde. O governo ordenou não emitir atestado de óbitos. Os mortos foram enterrados em valas comuns e essa história não foi contada nas escolas chilenas.

Calama

Seguimos para Arica, situada no extremo norte do Chile, na fronteira com o Peru. Sempre descendo, finalmente deixamos o deserto para trás até avistar o Pacífico pela primeira vez nesta viagem. Arica é uma cidade portuária, zona franca, cerca de 200 mil habitantes, grande para os padrões da região. Tem um comércio popular intenso, com sacoleiros por todos os lados, ruas estreitas, carros e gente misturados na rua. De repente: um susto. Um menino, saído do nada, atravessou a frente da ONÇA. Estávamos a uns 20 quilômetros por hora e acertamos em cheio o garoto, que se espatifou no meio da rua. Juntou uma pequena multidão em torno da ONÇA. Mas todos parecem que entenderam, inclusive o menino, que foi um acidente. Se levantou dizendo que estava bem. Quisemos levá-lo a um pronto-socorro, mas ele se recusou e sumiu no meio da multidão. Um transeunte disse que o garoto não ía fazer queixa alguma, que tudo estava bem e que o melhor era irmos embora. Partimos.

Em 2007, quando a matança completou 100 anos, Michelle Bechelet, presidente chilena, ordenou que os corpos fossem exumados e enterrados em um memorial contruído no lugar do crime.

Passamos alguns dias acampados numa praia nos arredores de Arica, explorando à pé a região. Depois de tanto deserto, ver o sol se por nesse mundo de água e respirar oxigênio farto a beira mar era tudo o que queríamos. E com as ondas frias do Pacífico quebrando em nossos pés, entre um pescado frito e uma cerveja gelada, terminamos a etapa chilena de nossa viagem.

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ARGENTINA

Em Foz do Iguaçu cruzamos a fronteira com a Argentina, trocamos reais por pesos a 2:1 e entramos na terra de Maradona. Nossa expectativa era uma rigorosa inspeção na aduana, guardas, exigências de cambão, dois triângulos, caixa de primeiros socorros, seguro contra terceiros e tantas outras coisas que oficialmente são exigidas de turistas estrangeiros para transitar por aqui. Que nada! O guarda da aduana nem olhou na nossa cara. Inspecionou o passaporte, carimbou e “buena viaje”. Não durou um minuto esse processo. Foi um pouco frustrante. Nossa primeira fronteira… fizemos a lição de casa direitinho mas ninguém quis ver. Será sempre assim, perguntamos a nós mesmos. Infelizmente, não. Mais adiante na viagem sentimos saudades dessa tranqüilidade.

Entrando na Argentina pela Ruta Nacional 12

Pegamos a “Ruta Nacional 12”, que não deixa de ser uma continuação da BR-469 que nos trouxe até Foz, e seguimos rumo a Corrientes. A estrada margeia o rio Paraná por toda a fronteira com o Paraguai. No dia seguinte pegamos uma longa e penosa estrada até chegarmos a Salta, capital da província de mesmo nome.

Na medida em que nos deslocávamos para o norte, mais e mais a paisagem se transformava, até que em Salta entramos na Puna, altiplano árido que abrange o extremo noroeste argentino, norte do Chile, sul da Bolívia, se estendendo até o extremo sul do Peru.

Salta é uma cidade grande, com quase 400 mil habitantes, 1.350 metros acima do nível do mar. Passamos alguns dias na cidade andando por suas praças e experimentando meticulosamente uma infinidade de diferentes tipos de empanadas salteñas. Exquisitísimas! O vinho bom é barato, o que deixou as empanadas ainda mais saborosas. Visitamos o surpreendente “Museu Argentino de Alta Montanha”, passeamos pela feira de rua sob uma inesperada chuva forte.

No Museu, uma visão e uma história surpreendente. Os corpos mumificados de duas crianças e uma adolescente, encontrados há dez anos no topo do Vulcão Llullaillaco, perto da fronteira com o Chile, estão lá depositados. As Múmias de Llullaillaco, como são chamadas, foram sacrificadas há 500 anos, mas seu estado de conservação é tamanho que parecem estar prestes a acordar a qualquer momento. Foram encontradas a quase sete mil metros de altitude por uma expedição de arqueólogos argentinos e de outras nacionalidades, que partiu de Salta em 1999. No auge da civilização inca crianças de várias comunidades eram levadas por suas famílias para Cuzco, o centro do império. Lá, em cerimônias religiosas, as mais bonitas e inteligentes eram escolhidas e levadas à pé por centenas de quilômetros até o topo das mais altas montanhas, onde em trajes de festa eram alcoolizadas com uma bebida feita do milho e, já em coma, depositadas em covas com seus brinquedos e alguns alimentos. Para nós, estarrecidos com essa história cruel, elas morreram de frio e hipóxia no topo do Llullaillaco. Para as suas comunidades elas não morreram, ao contrário, se imortalizaram, foram se encontrar com os deuses e pedir fertilidade e boa colheita para suas aldeias. Conversamos sobre essa história com um descendente inca numa praça de Salta. Ele insinuou que há dezenas de outras múmias na Puna, em lugares sagrados, mantidos em segredo pelas comunidades indígenas.

Quebrada de Humahuaca

Após alguns dias em Salta, partimos para explorar as terras altas da Puna argentina. Subimos norte em direção à Quebrada de Humahuaca. Após passar pela cidade de San Salvador de Jujuy, o caminho é formado por 170 quilômetros de sucessivos vales à beira do Rio Grande, margeados por montanhas altas e coloridas por diferentes minérios, até bem próximo da fronteira com a Bolívia. Muitos marrons e vermelhos, amarelos, verdes, roxos, preto. No caminho visitamos diversos povoados: Leon, Volcán, Tumbaya, Purmamarca, Maimará, Tilcara, Huacalera, Uquia. Essa região foi declarada “Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade” pela UNESCO.

Paramos em Humahuaca – 8 mil habitantes, quase três mil metros de altitude – onde passamos três dias. As ruas são estreitas, empoeiradas, com calçadas de pedra. As casas têm paredes grossas e coloridas, de adobe. O ar é frio, seco, rarefeito. Crianças de rostos índios e felizes brincam na praça central. Este é um antigo assentamento indígena, os Omaguacas. Suas tradições estão em toda parte.

Humahuaca

Perdemos um pouco a noção do tempo em Humahuaca. O sol do meio dia é forte de deserto.  A luz é intensa. O tempo anda devagar. Não há sinais do século XXI. Parece que as coisas sempre estiveram e estarão lá como sempre. Paramos numa pousada simpática, cuja dona era bonita. No primeiro dia deixou nosso café da manhã na porta do quarto e se foi. No segundo, bateu na porta, entrou,  deixou o café na mesa e saiu. No terceiro dia entrou sem bater, sem café e sem roupa; deitou na cama ao lado e adormeceu sorrindo. Justo agora que nos acostumamos com a altitude, perdemos o fôlego com essa visita inesperada e embaraçosa.

No dia seguinte saímos cedo de Humahuaca, sem café, retornamos pela Quabrada até Purmamarca, na Serra das Sete Cores, viramos oeste e subimos uma imensa cadeia de montanhas. Belíssima e dramática subida até 4.200 metros. Daí descemos para  Salinas Grandes, a 3.400 metros e pegamos um longo caminho de rípia rodeando um salar, ermo, seco, com isoladas casas de adobe raras  na paisagem desoladora. Foram infinitos 150 quilômetros que nos levaram a San Antônio de Los Cobre.

subida para San António de los Cobres

Este trecho judiou demais da ONÇA e da nossa coluna. Tivemos nosso primeiro problema mecânico da viagem. Dois amortecedores se danificaram. Até aí, tudo bem. A ONÇA estava estável e continuamos sem problema, pensando em trocar os amortecedores danificados, mais à frente, por um par sobressalente que trouxemos. Mas, lá pelo meio do trecho, o carro começou a “puxar” para a esquerda, e isso foi se acentuando cada vez mais ao longo de alguns quilômetros. Paramos para verificar o que acontecia. A roda dianteira direita tinha um jogo estranho. Levantamos o carro com o hi-lift e… percebemos que tínhamos perdido um dos dois parafusos do garfo superior (e o outro estava frouxo), que mantêm a roda presa e o carro alinhado. O lugar que o parafuso que sobrou tinha um acesso muito difícil. Apertamos o parafuso da melhor maneira que pudemos e seguimos com todo cuidado até San Antônio.

San António de los Cobres

San Antônio de los Cobres é o que sobrou de um povoado que se formou em torno de uma antiga mineração de cobre e prata. Isolada e perdida, com seus dois mil habitantes, 3.700 metros acima do nível do mar. É incrível como em um só dia a paisagem mudou de forma tão radical. A profusão de cores e vida da Quebrada de Humahuaca terminou. Aqui tudo é de um tom pastel, empoeirado. As casas são pequenas e pobres. As ruas são de terra. O sentimento é de desolação.

Conseguimos encontrar um mecânico em San Antônio. Juntos trocamos os amortecedores, desmontamos e recolocamos a roda que quase se soltou algumas horas atrás, e tudo pareceu que voltou ao normal.

Passada a tensão com os problemas da ONÇA, aproveitamos o resto da tarde para andar um pouco pelo povoado e conversar com pessoas do lugar. Posto de gasolina é um ótimo lugar para bater papo. Sempre tem alguém que se aproxima puxando conversa.

O céu da Puna é famoso. Em San Antônio a altitude, a pouca umidade, a quase ausência de luz artificial e esse ambiente lunar deixam o céu ainda mais deslumbrante e enigmático. Será que tem alguém nos vendo do outro lado do universo? Naquela noite sentimos que sim. Sim, não estamos sozinhos. Seria um grande desperdício de espaço.

Na manhã seguinte deixamos San Antônio pelo Paso de Sico, longo caminho de ripia que nos levou para o Chile. Vivemos uma outra Argentina, sem tango, sem infelices ilusiones, sem empáfia portenha. E ainda assim, cheia de gente simples mas orgulhosa de sua cultura e tradições.

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FOMOS

Nós e a ONÇA na véspera da partida

Sexta-feira, 18 horas, fim de expediente. Finalmente cumprimos nosso último compromisso de trabalho antes da viagem. Agora serão 60 dias de estrada pela frente. Ao chegar em casa a ONÇA estava lá, na garagem, preparada, com toda nossa bagagem, só faltou abrir as portas e nos engolir.

Durante a noite foi difícil dormir. Aliás, não dormimos nada. Ficou passando um filme, mostrando a preparação da viagem numa cronologia confusa. As primeiras idéias, os trâmites para embarcar a ONÇA no Equador, a situação política em Honduras, os cuidados com a altitude no Peru, os conflitos entre narcotraficantes na fronteira do México com os Estados Unidos…

Dia seguinte, cinco horas da manhã, escuro ainda, saímos de casa para iniciar a maior aventura de nossas vidas (até agora).

Nosso plano era, de Campinas, entrar na Argentina por Foz do Iguaçu, sem correria, fazendo o trajeto em dois dias. Mas, depois de tantos meses de preparo a ansiedade era tanta para finalmente sair viajando que foi difícil parar. Fomos indo, indo, indo, e, quando nos demos conta, já estávamos em Foz. Foram 12 horas de direção, parando apenas algumas vezes para abastecimento (e desabastecimento também) e um café. Tudo o que não se deve fazer, logo no primeiro dia. Mais adiante, fomos encontrando nosso ritmo de viagem, mesclando dias de deslocamento de 4 a 8 horas de direção com dias de descanso, explorando, muitas vezes a pé, a região.

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VAMOS PARA OS EUA DE CARRO…

– Vamos tirar férias?

– Sim.

– Vamos para os Estados Unidos?

– Sim!

– Com a ONÇA?

– SIM!!! Claro.

Foi assim que a idéia surgiu. Brotou. Espontânea. Óbvia. Cada um faz o que quer (e o que pode) no seu tempo livre. Nós, juntando daqui, juntando dali, conseguimos reunir dois meses de férias para a viagem.

Se o critério fosse viajar com segurança, conforto, rapidez e economia, teríamos ido de avião, como todo mundo. Mas, viajar para os Estados Unidos era só um pretexto para conhecermos lugares, pessoas e costumes; os sabores, as dores e os odores da América Latina.

Continuidade. É esse o diferencial de uma viagem de automóvel. Da janelinha nós queríamos ver passar toda a sutileza da transição entre o cerrado e o charco, o charco e a puna, a puna e o altiplano, o altiplano e o mar. Queríamos ver como o deserto se transformava em floresta, como o vento quente ía esfriando até nos congelar, como casas ricas davam lugar a casebres paupérrimos. Queríamos ver os europeus de pele branca se misturando aos poucos com os índios de pele vermelha, com os orientais de pele amarela, com os africanos de pela negra. Tudo mudando, se interpenetrando, tenuemente, delicadamente, ao longo de 20 mil quilômetros. Absolutamente diferente de pegar um avião em São Paulo e descer em Nova Iorque.

Nosso trajeto de Campinas a Lawrence (EUA)

Uma viagem como essa precisa de preparação. E põe preparação nisso! Começanos trocando idéias com amigos off-roaders que já navegaram em trechos por onde passaríamos. Depois, reunimos um grande número de guias turísticos e mapas rodoviários cobrindo os países do trajeto. Na web, conseguimos muito material: mapas, comentários, dicas, sugestões, além de uma base roteável para GPS, muito detalhada, cobrindo todo o território da Argentina e do Chile, bem como parte do Peru. Juntando as informações obtidas nessas inúmeras fontes, escrevemos um roteiro com os caminhos, a quilometragem e os possíveis locais de parada a cada dia da viagem, descrevendo o que imaginamos que seria o nosso dia-a-dia. Além disso, fizemos contato com todas as embaixadas dos países envolvidos, verificando e preparando a documentação necessária para a entrada em cada país do trajeto.

Esse processo nunca termina. Quanto mais nos preparamos, mais coisas vão aparecendo, mais possíveis empecilhos são antevistos, mais percebemos que é impossível preparar e controlar tudo, que o imponderável está aí rondando. Então, como diz uma amiga nossa, chega uma hora que a gente tem que jogar tudo dentro do carro, fechar a porta e partir…


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COMO A COISA CONTINUOU

Recém chegados ao mundo off-road, começamos nosso aprendizado fazendo os fundamentos do fora-da-estrada na região sudese: incontáveis trilhas pelas serras da Mantiqueira, Bocaina, Canastra e também pelo Pantanal Matogrossense. Foi assim que começamos a lidar com o guincho, o macaco hi-lift, o cambão, a reduzida, o bloqueio de diferencial, o rádio VHF, a areia, a rocha, o cascalho, a lama, a transposição de riachos, as valas, os facões, os aclives acentuados, os declives, as inclinações laterais, as técnicas de ancoragem, a patesca, os pneus mud, os faróis auxiliares, a geladeira portátil, os tanques de combustível extra, a caixa de ferramentas, as peças de reposição,o GPS, os mapas roteáveis, o telefone satelital. Tem muita coisa para aprender. Rodamos 30 mil quilômetros fora-da-estrada nessas regiões e sentimos que somos novatos ainda.

Mas nos aventuramos um pouco mais longe. Queríamos aprender a andar na lama, mesmo. E aí, não tem escola melhor que a BR-319 e a Rodovia Transamazônica no mês de março. Antes é impossível, só passa de barco. Depois é sem graça. Tem que ir em março.

Águas de março! Pegamos a “enchente do século” na Amazônia em março de 2009. Que sufoco. Sobrevivemos. Foi lá que nosso carro cresceu, amadureceu, ganhou personalidade e foi batizado: ONÇA pintada, o maior felino brasileiro, que vive na Amazônia.

Nossa camionete treinando andar no barro na Transamazônica em março/2009

ONÇA na Transamazônica, 2009

A ONÇA é uma camionete quatro por quatro. Nela instalamos um guincho elétrico, que pode ser mudado do para-choque dianteiro para o traseiro, conforme a necessidade. Trocamos os pneus mud originais por um jogo “todo terreno”. Substituímos os amortecedores originais dianteiros e traseiros por outros bem mais resistentes à compressão e à expansão. Instalamos rádio VHR, GPS e um sistema de telefonia móvel via satélite. Também, dois faróis de milha auxiliares. Colocamos uma capota na caçamba para melhor proteger a bagagem, uma bateria auxiliar pra tocar os novos acessórios elétricos, reservatório para 40 litros adicionais de diesel, ligado ao tanque original por uma bomba elétrica de sucção. Finalmente, instalamos uma barraca de teto para as noites frias nas montanhas. Na caçamba levamos um kit cozinha básico e uma geladeira portátil.

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COMO A COISA COMEÇOU

Durante uma década, a Rita e eu sonhamos construir uma casa de campo, nem tão longe, nem tão perto, para fugir de Campinas nos finais de semana. Quando finalmente conseguimos um terreno e algum dinheiro para o projeto surgiu um problema. O lugar era muito complicado. Para chegar onde seria nossa casa tínhamos que transpor uma pirambeira de terra na encosta de um morro, que quando chovia muito era intransitável pra um carro normal, desses que gente comum tem pra trabalhar, levar menino na escola, visitar os amigos.

Mas sonho é sonho. Não desistimos. Compramos uma camionete quatro por quatro para levar o material de construção pirambeira acima e iniciar a obra. Este foi o pecado. Aos poucos fomos sentindo que pegar a estradinha de terra, vencer os buracos, a lama, os aclives, subir e descer pirambeira de terra que chegava a 30 graus de inclinação dava muito mais prazer do que construir e desfrutar a tão sonhada casa de campo.

A obra acabou antes de terminar. Casa não sai do lugar. Para que duas? Abortamos o projeto, caímos na estrada e dela não saímos até hoje.

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DEDICATÓRIA

Esta viagem foi dedicada a Aimberê, Guayxará, Tupac Amaru, Atahualpa, Montezuma, Emiliano Zapata, Gregório Bezerra, Zumbi de Palmares, Anita Garibaldi, Salvador Allende, Augusto César Sandino, Joaquim José da Silva Xavier, Ernesto Che Guevara, Dinalva Oliveira Teixeira, John Christopher Brown, Luiz Gonzada das Virgens, Oswaldo Orlando da Costa, João de Deus, Agustin Farabundo Martí Rodrigues, Ana Romana, Líbero Castiglia, Domingas Maria do Nascimento, José Brigg, Cristiano Cordeiro, Simon Bolívar, José de San Martín, José Gervásio Artigas, Miguel Hidalgo y Costilla, David Capistrano da Costa, Marín Iquin, Antônio José Sucre, Maurício Gabrois, Camilo Cienfuegos, Haydeé Santamaría, Carlos Mariguella, Pancho Villa, José Feliciana Ama, Eris Cabrera, Elza Monnerat e todos os outros que, de uma ou de outra maneira, a seu modo, lutaram por uma América livre.