Pedalando por Cuba de leste a oeste, 2024. [parte IV]
Uma aposta extraordinária – e arriscada
Em 1978 o cantor e compositor cubano Sílvio Rodriguez lançou a canção Pequeña Serenata Diurna, um hino à simplicidade, ao amor e à vida cotidiana cubana.
Vivo en un país libre
Cual solamente puede ser libre
En esta tierra, en este instante
Yo soy feliz porque soy gigante
Amo a una mujer clara
Que a mí me ama
Sin pedir nada
O casi nada
Que no es lo mismo
Pero es igual
Y si esto fuera poco
Tengo mis cantos
Que poco a poco
Muelo y rehago
Habitando el tiempo
Como le cuadra
A un hombre despierto
Soy feliz
Soy un hombre feliz
Y quiero que me perdonen
Por este día
Los muertos de mi felicidad
A Revolução se aproximava dos 20 anos e a canção refletia o espírito daqueles tempos intensos. O balanço que se fazia era que as batalhas cotidianas eram duríssimas, havia que se matar um leão por dia, mas o saldo era positivo. O analfabetismo fora erradicado, o acesso à saúde era universal, a mortalidade infantil caíra a níveis insonhados, a expectativa de vida se igualava à dos países ricos, havia cultura, esporte, música, livros, artes plásticas, ciência por todos e para todos.
Raul Castro ainda vive, com seus 92 anos, mas a geração que derrubou o capitalismo em Cuba acabou. Hoje quem produz as riquezas da Ilha é a terceira geração da Revolução, e o espírito do tempo parece não ser de tanta esperança e alento.
Durante os 42 dias em que estive em Cuba, falei com muita gente. A todo momento, no café da manhã, nas paradas pelo caminho, nos restaurantes, taxis, praças, ruas, praias, sempre que possível, conversava com as pessoas sobre os mais variados assuntos. E a minha percepção foi a de um desalento generalizado com a vida cotidiana. O que vi, repetidamente, foi um povo cansado de tanta escassez e penúria.
O que mais me impactou foi que entre os jovens com quem conversei, não encontrei um só que quisesse permanecer na Ilha. No salgo porque no puedo, me diziam. Tivessem um visto, uma proposta de trabalho, a casa de um parente, não hesitariam em tomar o primeiro voo para o Panamá e de lá seguirem outras trilhas, como aliás têm feito milhares de cubanos nos últimos anos. Estatísticas à direita e à esquerda reportam que a população cubana tem diminuído nos últimos anos. Parte desse declínio decorre da queda da natalidade observada na Ilha. Outra parte é explicada pelo fluxo migratório.
É doloroso pensar que a juventude não vê futuro em seu próprio país. É um sinal fortíssimo que estão enviando a quem quiser ouvir. Desconfio que a essa queda de natalidade não decorre apenas da migração do campo para as cidades e do aumento da escolaridade das mulheres, como ditam manuais de demografia. Mesmo porque esses fenômenos tiveram seu auge nas primeiras décadas da Revolução. Muito da queda da natalidade é puro desalento. Gerar um filho significa lançar raízes. Emigrar é voar para o desconhecido. São movimentos de difícil conciliação entre si. Em um contexto onde o futuro é incerto e a sobrevivência no presente é uma luta exaustiva, a decisão de não ter filhos torna-se uma expressão silenciosa, mas eloquente, desse desalento.
Enquanto estive na Ilha, entre fevereiro e março de 2024, cubanos em geral faziam filas enormes nos postos de gasolina para abastecerem 10 litros por dia. Apenas motoristas profissionais (ônibus, caminhões, taxis) e estrangeiros podiam encher seus tanques livremente. Era como assistir um país inteiro racionar sua própria circulação. Não havia combustível suficiente para tocar a Ilha. A geração de energia em Cuba é predominantemente termoelétrica. Consequentemente, houve apagão na maioria das noites que passei na Ilha, de Havana a Boca de Camarioca. Na conversa do jantar, a pediatra que me hospedou em Holguín tinha os olhos marejados ao me contar que faltava dipirona no posto de saúde. Em Santa Clara, o cirurgião anfitrião me segredou constrangido que o estoque de fios de sutura do hospital estava para acabar. Havia casas onde a família não almoçava. Apenas jantavam.
Em Cambarién, o casal que me hospedou disse envergonhado que não tinham nada a me oferecer a não ser uma xícara de café preto, sem açúcar. Cambarién é uma das muitas cidades fora do circuito turístico por onde passei, onde dólares e euros não chegam. Cidades onde a população não tem acesso a dinheiro do turismo. Cidades onde depende-se apenas do salário em pesos cubanos (na época, algo entre R$ 150 e R$ 300 mensais) e da famosa libreta de abastecimiento, que funciona desde 1963. Este é um sistema que permite a cada família cubana comprar uma quantidade fixa e insuficiente de itens essenciais, como arroz, feijão, açúcar, café e óleo, a preços simbólicos, altamente subsidiados.
Na tentativa de qualificar minha impressão pessoal, tive muita dificuldade em identificar estatísticas confiáveis ou úteis para mensurar a situação alimentar da população cubana. Estatísticas estadunidenses existem em profusão, mas essas não levo em conta. Tenho os dois pés atrás quando se tratam de estatísticas de órgãos governamentais europeus, isto é, dos governos dos países que sempre foram coniventes com o embargo. Já o governo cubano, por outro lado, reporta apenas dados agregados, médias para toda a Ilha, mascarando diferenciais internos, como por exemplo campo vs cidade, ou trabalhadores do setor turismo vs camponeses. Talvez, um dado que forneça algum parâmetro seria o relatório “O Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo”, produzido conjuntamente por cinco agências especializadas da ONU, que refere que em 2022, um a cada quatro cubanos enfrentava dificuldades no acesso a alimentos, seja em quantidade, seja em qualidade. Com ou sem estatísticas, não tenho dúvidas de que o acesso à alimentação é um problema atual em Cuba.
Tudo isso nos leva a uma reflexão. Para entender como uma ilha que obteve tantas conquistas chegou a este ponto de cansaço, é preciso voltar à aposta original daqueles que desembarcaram do iate Granma para uma das grandes aventuras do século 20.
Os insurgentes que tomaram Havana em janeiro de 1959 fizeram uma aposta extraordinária – e arriscada. A Revolução decidiu construir primeiro aquilo que outras revoluções só conseguiram – talvez melhor, estão conseguindo – no final: saúde universal, educação gratuita e de excelência da pré-escola à universidade, biotecnologia de ponta, segurança e coesão social.
Cuba erradicou o analfabetismo e possui o sistema educacional mais acessível e robusto da América Latina. A taxa de alfabetização é virtualmente de 100%, e a formação universitária é massiva e gratuita.
Cuba construiu um sistema de saúde de acesso universal e gratuito em todo seu território, com produção própria de vacinas e medicamentos, resultando em indicadores, tais como expectativa de vida ao nascer e mortalidade infantil, comparáveis aos de nações ricas europeias.
Cuba conquistou uma situação de segurança e coesão social com coeficientes de criminalidade baixíssimos quando comparados com o restante da região, incluindo os EUA.
Cuba forjou um enorme contingente de cientistas nas mais variadas áreas do conhecimento. Engendrou uma sólida produção artística e cultural. Essas conquistas são amplamente reconhecidas.
Creio ter sido esse caminho uma escolha ideológica e estratégica: elevar prontamente a dignidade do povo cubano, legitimar a Revolução num país a poucos quilômetros da maior potência capitalista do planeta, criar independência intelectual, ser exemplo para o restante da Latinoamérica, influenciar movimentos de libertação das colônias africanas.
Talvez não houvesse alternativa política senão priorizar saúde e educação.
No entanto, esse salto civilizatório ocorreu antes que a Ilha garantisse sua autossuficiência alimentar e antes que suas forças produtivas – sobretudo a indústria e a agroindústria – alcançassem níveis que pudessem sustentar tamanha ambição social. Cuba construiu uma superestrutura social avançada assentada numa economia de baixo desenvolvimento material.
No vocabulário marxista ampliado, saúde e educação públicas não geram excedentes econômicos diretos. São setores que consomem recursos produzidos em outras partes da economia. Cuba, ao priorizar desde logo esses setores, gerou um modelo com custo social alto e permanente sem construir uma base industrial e agroindustrial capaz de gerar excedentes para financiar essa escolha.
E, no entanto, a conta tinha que ser paga.
Nas primeiras décadas da Revolução, Cuba integrava-se completamente ao COMECON, o Conselho para Assistência Econômica Mútua, uma organização econômica sob a liderança da União Soviética que compreendia países socialistas do leste europeu, incluindo inclusive Vietnã e Mongólia. A URSS comprava o açúcar cubano a preços muito acima do mercado mundial, além de outras comodities agrícolas e minerais, e vendia a preços subsidiados petróleo, maquinarias agrícolas e industriais, fertilizantes, alimentos e praticamente todos os bens de consumo da Ilha. Cerca de 2/3 dos alimentos consumidos em Cuba eram importados. Isso explica, ao menos parcialmente, o vigor das conquistas sociais da Revolução Cubana a despeito de uma base material produtiva pouco desenvolvida.
No entanto, entre 1989 e 1991 a URSS entrou em colapso e o COMECON foi dissolvido. Se, por um lado, o efeito ideológico dessa falência sobre o pensamento revolucionário em Cuba foi praticamente nenhum – diferentemente do que ocorreu com os movimentos de esquerda no restante da América Latina e na Europa – por outro lado, sobre as condições materiais de vida em Cuba o efeito foi devastador. O comércio internacional cubano despencou em mais de 85%. De um dia para o outro, a Ilha perdeu seu mercado principal, seu fornecedor de combustível e sua principal fonte de alimentos e insumos industriais. E o embargo norte-americano, cruel por si só, nesse contexto tornou-se ainda mais asfixiante. Não apenas impedia que Cuba comprasse dos EUA, mas também que empresas de terceiros países vendessem equipamentos ou peças com componentes estadunidenses.
O impacto foi catastrófico e rápido. Ônibus, carros e caminhões desapareceram das ruas. A bicicleta (muitas vezes importadas da China) tornou-se o principal meio de transporte. Tratores e colheitadeiras pararam, reduzindo a produção de alimentos. Apagões diários, que podiam durar 16 horas ou mais, tornaram-se parte da vida diária. A indústria parou. O consumo calórico médio na Ilha caiu e a perda de peso da população tornou-se visível. Alguns cubanos, causticamente irônicos, chamam esses tempos de “os anos magros”.
Em uma resposta de emergência ao colapso quase total da economia cubana, o governo promoveu uma série de medidas que constituíram o “Período Especial em Tempos de Paz”, um plano militar de contingência adaptado para uma crise econômica em tempos de paz. Esse plano incentivou:
– A criação de hortas comunitárias em qualquer terreno vago nas cidades, para produzir alimentos localmente, sem depender de transporte e petróleo;
– A legalização do dólar americano, permitindo que cubanos recebessem oficialmente remessas de familiares no exterior;
– A criação de joint-ventures com empresas estrangeiras para a construção de hotéis e o incentivo do turismo internacional como forma de obtenção de divisas;
– A legalização de pequenos negócios privados, como restaurantes particulares e o aluguel de quartos (as tão mencionadas aqui casas particulares).
Parcialmente como efeito do Período Especial, a partir dos anos 2000 a economia começou a se recuperar lentamente. Contribuíram para essa pequena recuperação o estabelecimento de relações comerciais com a Venezuela, Rússia, China e até o Brasil. Mas houve um custo. A legalização do dólar criou uma condição de vida desigual entre aqueles que tinham acesso às divisas – sejam elas atreladas ao turismo, sejam elas decorrentes de remessas do exterior – e aqueles que dependiam apenas do peso cubano. Dois países passaram a habitar a mesma ilha.
O Período Especial, com sua escassez de produtos básicos e a luta diária pela sobrevivência deixou uma marca no modo de ser do povo cubano. Contribuiu marcadamente para o desalento a que me referi parágrafos atrás. Principalmente na terceira geração, aqueles que nasceram no século 21 e não puderam viver sua Pequeña Serenata Diurna.
E aí veio a Pandemia, fechando a Ilha e mergulhando a terceira geração da Revolução em um segundo “Período Especial”.











