Pedalando por Cuba de leste a oeste, 2024. [parte I]
A Filha do Vento…
Quando eu era adolescente, a Revolução Cubana roubou meu coração.
As notícias eram poucas, filtradas, distorcidas. Mas as fotos eram maravilhosas, instigantes e arrebatadoras. Desde sempre imagens me sensibilizam mais que textos. Por meio da revista Fatos e Fotos conheci meus novos heróis, épicos, visionários, delirantes, triunfantes, grandiosos, heroicos, majestosos, lendários, sublimes, imponentes, mitológicos, proféticos, utópicos, febris, alucinados, desmedidos, arrebatados, incendiários – para ser breve e dizer o mínimo.
Aos poucos, no meu quarto as fotos de Pelé e outros jogadores do Santos foram sendo substituídas por Fidel, Che, Cienfuegos, Célia Sanches, Haydée Santamaria, Juan Almeida; e o povo ensandecido na Praça da Revolução.
Sempre quis visitar Cuba. Mas ora não tinha dinheiro, ora não era permitido, ora não tinha tempo, ora tinha outras prioridades. E a coisa foi evoluindo assim por anos, décadas, com displicência, desatenção, negligência. Até que em 2019 a calmaria perfeita se desenhou. Eu tinha tempo, dinheiro, disposição e finalmente essa visita se tornou minha prioridade número zero.
Depois de tanta espera, essa não poderia ser uma visita trivial. Mais do que uma visita “normal” a Cuba, decidi levar para lá uma bicicleta e atravessar a ilha pedalando de leste a oeste.
Visitar Cuba de bicicleta foi uma escolha de ritmo e atitude. Quis percorrer o país numa velocidade que me permitisse absorver transições e nuances da paisagem física e humana. A vinte quilômetros por hora o tempo se dilata; o contorno das montanhas, a luz nas plantações de cana e tabaco, os sons distantes de uma conversa, o ronco dos motores obsoletos, o azul turquesa do mar, os aromas da terra, das feiras, das comidas na rua, tudo cresce e ganha enorme presença. Viajar de bicicleta convida à observação paciente, ao contato com pessoas, à descoberta de detalhes, à valorização das pausas necessárias, da sombra, da água fresca. É absurdamente diferente de viajar de carro ou ônibus.
A bicicleta permite andar e parar onde bem se entende. Permite mudar o roteiro a qualquer momento. Permite escolher o caminho menos óbvio, numa viagem em que o roteiro idealizado em casa durante meses de planejamento vai compondo com a realidade desnuda num contraponto entre a razão e o improviso irresponsável.
A bicicleta é silenciosa, não polui, coerente com a ideia de percorrer um país tão marcado pela relação íntima entre natureza, sobrevivência e história. Pedalar inclusive é manter o corpo (e também os pensamentos) em movimento e, de certo modo, integrá-los ao território num esforço muscular que retorna como a alegria de sentir o vento. O vento. O vento.
Filha do Vento… é o nome que escolhi para a bicicleta que pedalei pela ilha inteira. Assim mesmo, com reticências e em itálico. Eu mesmo a construí. Isto é, comprei suas partes aqui e acolá e a montei em casa. Procurei muito algo pronto e não achei nada que me agradasse num preço acessível.
O componente fundamental e definidor da performance de uma bicicleta, sem dúvida, é o ciclista. Mas com esse meu RG já um pouco desbotado, fica difícil mexer nessa variável. Diferentemente do automóvel, a bicicleta é um veículo de tração animal. E no caso particular desta viagem, o animal sou eu. Por isso, quis fazer uma bicicleta extremamente leve e com excelente desempenho no asfalto e na terra batida, para otimizar o meu esforço. Afinal, a previsão era pedalar 2 mil quilômetros, do extremo leste ao extremo oeste da Ilha.
Iniciei comprando um quadro super leve, chinês, de carbono – desses que em 2019 comprava-se pela internet e esperava-se no escuro dois meses até chegar em casa. Paguei um terço do preço praticado no Brasil, incluindo impostos. Depois, comprei um garfo usado, também de carbono, sem suspensão para economizar no peso. Caso tivesse optado por um garfo convencional o peso mais que dobraria. Durante o caminho, meus punhos, cotovelos e ombros fizeram as vezes da suspensão. Comprei duas rodas leves aro 29 e dois pneus 700×40 tubless. Durante a viagem, eu levaria minha bagagem basicamente penduradas no guidão e no canote. Assim, optei por comprar esses itens de alumínio, mais resistentes. Tinha medo que quebrassem no meio do trajeto. Depois, vieram um cassete de doze velocidades, o pedivela, os pedais com clips, o movimento central, uma coroa com apenas 28 dentes que custei a encontrar, um conjunto de discos, freios hidráulicos, câmbio e corrente. Fui montando a bicicleta aos poucos, na medida em que as peças chegavam. Pronta, a Filha do vento… pesou 10 kg, precisamente, 9.970 gramas, nada mal.
Na bagagem levei o mínimo e essencial. Uma muda de roupa, capa de chuva, luvas e capacete, um kit de ferramentas para reparos e ajustes mecânicos no caminho, bomba de ar, duas garrafas de água cabendo 2 litros cada, uma mochila pequena, câmera fotográfica, celular, passaporte e dólares. Tudo somado, mais 5 kg de peso seco, isto é, sem água e guloseimas.
A princípio, eu acamparia na maioria das noites. Mas três motivos me fizeram mudar de ideia. Primeiramente, conversando com a dona de um café-livraria em Havana com o instigante nome de Cuba Libro (http://www.cubalibrohavana.com) durante a fase de preparação dessa viagem, descobri que não é permitido acampar em locais públicos em Cuba. Um estrangeiro não pode simplesmente armar uma barraca numa praça, numa praia, debaixo de uma árvore, num canto qualquer e dormir. A chance de ser visitado à noite pela polícia convidando a uma passagem pela delegacia não é negligenciável. A opção seria pedir permissão e acampar no jardim ou quintal de uma casa. Mas ainda assim o dono teria que registrar minha presença na delegacia mais próxima, o que dá trabalho e causa incômodo ao morador.
Em segundo lugar, eu construí a Filha do Vento… e montei minha bagagem contando meticulosamente gramas de cada item. Acampar me acrescentaria alguns quilos extra a locomover por toda a Ilha. Teria que levar uma barraca (a minha pesa apenas 1 kg!), saco de dormir, colchonete, fogareiro, combustível, uma panela, um prato, um copo, garfo, colher, faca, sabão e alimentos a serem preparados à noite e ao amanhecer. Teria ainda que lavar a louça e cuidar dos resíduos. A logística se tornaria mais complexa e o peso demasiado.
E em terceiro lugar vem o argumento definitivo: las casas particulares. Elas existem em profusão em todas as cidades cubanas, acho que sem exceção. São facilmente identificáveis por um logotipo azul em fundo branco, que lembra um telhado, com os dizeres en divisa de arrendador. O logo sinaliza que a casa em questão é licenciada pelo governo para receber hóspedes estrangeiros que pagam a estadia em divisa, moeda de outro país. Para serem licenciadas, as casas têm que disponibilizar um ou mais quartos com banheiro privativo e água corrente. Me hospedar nas casas particulares foi uma oportunidade imperdível de convívio. Nesses lares falávamos de tudo, qualquer assunto era tema para horas de conversa, inclusive política interna do Brasil, que os cubanos parecem acompanhar atentamente. Nas noites passadas nas casas particulares aprendi mais sobre a vida em Cuba do que tudo que havia lido sobre o país desde minha adolescência. Nelas criei o hábito de assistir televisão. Não sei se há canais pagos em Cuba, mas a TV aberta tem programação de boa qualidade. O noticiário internacional é focado no sul global, com programas em espanhol da TeleSUR (Venezuela), RT (Rússia), CGTN (China), além da programação local. Lá assisti, por exemplo, uma entrevista com o presidente do IBGE, um show do Zeca Pagodinho, e outros programas que dificilmente assistiria no Brasil. Meus interlocutores e interlocutoras eram químicos, físicos, astrônomos, cientistas sociais, biólogos, geneticistas, artistas plásticos, geógrafos, matemáticos, nanotecnólogos. Até médicos cubanos me hospedaram. A hospedagem custa 25 dólares por dia, incluindo café da manhã. Esse preço é mais ou menos fixo em toda a Ilha. Em 2019, cinco milhões de turistas visitaram Cuba. Considerando que 10 milhões de cubanos vivem na Ilha, é muita gente. Em termos de comparação, o Brasil recebeu 6 milhões de turistas no mesmo ano, com uma população de 210 milhões de habitantes. Digamos que 90% dos turistas que Cuba recebeu em 2019 se hospedaram em casas particulares. Digamos que o tempo médio de visita foi de uma semana para cada um deles. Bem feitas as contas, isso equivale a uma injeção anual de 788 milhões de dólares nas mãos dos moradores cubanos, menos os impostos cobrados pelo governo. E ainda tem os gastos dos turistas no circuito de alimentação e diversão.
Além das casas particulares com o logo azul, há também casas com o mesmo logo, mas em vermelho. Essas são casas licenciadas para receberem hóspedes nacionais pagando em pesos cubanos. O aluguel pode ser cobrado por hora, como nos motéis brasileiros, com uso análogo.
Passei todo o ano de 2019 me preparando para essa viagem. Acordava muito cedo, com as primeiras luzes da manhã, e antes de ir para o trabalho – mesmo com chuva, vento e trovoadas – pedalava uma a duas horas num ritmo forte por trilhas de terra cheias de subidas e descidas perto da casa onde moro. Aos domingos exagerava um pouco, percorrendo cerca de 100 km por cinco a seis horas. Ao final do ano achei que estava fisicamente bem. Programei a viagem para março/abril de 2020. Mas… no meio do caminho tinha uma pandemia. Para meu desalento, fiz parte do privilegiado grupo de cinco milhões de turistas de todos os cantos do planeta que desafortunadamente tiveram que cancelar suas viagens para Cuba por causa da COVID-19.
Para Cuba, a pandemia de COVID-19 teve o efeito de um meteoro caindo sobre o Titanic. Após cessar o fluxo de investimentos que a União Soviética destinava a Cuba até se desmantelar, o país vinha mal-e-mal se equilibrando em meio ao criminoso embargo econômico que já dura mais de seis décadas imposto pelos EUA. Em 2019, a maior parte das receitas cubanas vinha do turismo, complementadas por transações econômicas com Venezuela, Rússia, China. Todo esse fluxo de reservas advindas do turismo e do comércio internacional acabou abruptamente no início de 2020, jogando a Ilha na maior crise econômica e social experienciada desde a Revolução.
Epidemias são fenômenos autolimitados. Têm mecanismos intrínsecos que produzem seu fim, mesmo sem a (no caso brasileiro, apesar da) interferência humana. Não fosse assim, a humanidade não teria sobrevivido à primeira. A pandemia acabou, mas antes disso levou consigo sete milhões de vidas, 10% delas de brasileiros e brasileiras que poderiam ter tido melhor sorte não fosse a desastroso enfrentamento da situação por parte do governo federal. Se contabilizarmos as mortes indiretamente relacionadas à pandemia, esse número ultrapassa os 15 milhões, assim diz a Organização Mundial da Saúde.
Ao final de 2021, após quase dois anos de restrições rigorosas, Cuba reabriu suas fronteiras para o turismo internacional. Não sem antes ter imunizado toda a população com vacinas de produção local.
Muito lentamente, num patamar bastante inferior aos anos anteriores à pandemia, o turismo foi sendo retomado. Em 2023 reiniciei minha preparação para a grande travessia da Ilha. E em janeiro de 2024 desembarquei com a Filha do Vento… no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana.








Muito eba, já tô imaginando cada capítulo do livro! Ou poderia ser um filme tb! Diários de bicicleta…