Pedalando por Cuba de leste a oeste, 2024. [parte II]
Desembarcar em La Habana foi como volver a los diecisiete después de vivir un siglo.
Já na saída do avião, por uma escada direto na pista, não sabia se o que sentia era cheiro de querosene de aviação ou o rescaldo da pólvora queimada pelos rebeldes. Fazia calor. A burocracia na imigração parecia coreografada por um relógio soviético. A bicicleta enfim apareceu na esteira, tirando-me do desespero.
Do lado de fora, por um instante me confundiram com uma celebridade. Todos queriam me levar. Senti um aperto no peito ao ver os carros antigos, não como relíquias, mas como fantasmas alquebrados. Foi difícil escolher entre tantos Chevrolets Bel Air, Fords Thunderbird, Cadillacs 62, Buicks Roadmaster, Pontiacs Star Chief, Studebakers — alguns coloridos, todos barulhentos, soltando fumaça. Acabei escolhendo um raro Ford Consul Mark I, igualzinho, modelo e cor, ao primeiro automóvel do meu pai. Até o cheiro de couro antigo dos bancos inteiriços era o mesmo da minha adolescência. Entrei no carro do meu pai, a bicicleta amarrada no teto, e segui pela Avenida Rancho Boyeros, Plaza de la Revolución, Avenida La Rampa, Malecón, Paseo del Prado, até chegar na Calle Refugio, entre Morro e Prado — a casa particular que seria meu lar por uma noite.
Saí para respirar a cidade. Havana Velha era como imaginei. A base, feita de casarios coloniais, puídos, em frente à baia onde aportaram tantos negreiros. Para quem tem a mente solta, lembra Salvador, Bahia. Mas, diferentemente da capital baiana, sobre essa base assenta-se uma forte iconografia insurgente. Em cada esquina uma alusão ao triunfante fracasso de 26 de julho, ao desembarque do Granma, às colinas da Sierra Maestra, ao descarrilamento do trem blindado, à tomada de Havana, aos incontáveis aniversários da reforma agrária, pátria o muerte.
Na Calle O’Bispo, o coração de Havana Velha, havia uma profusão de turistas, das mais diversas nacionalidades. Turistas do bem, mas turistas. Alegres, falantes, de bermudas, com bolsa tiracolo, câmera fotográfica, como eu. O sujeito que vai para Cuba não é um bolsominion. Bolsominion manda os outros para Cuba e vai ele próprio para Miami, sem mesmo saber que está tão perto da ilha comunista. Visitantes em Cuba não rezam para pneus. Todos têm, se não simpatia, ao menos curiosidade de conhecer a primeira, e até o momento única, experiência socialista da Latinoamérica.
Anoiteceu. Turistas afortunados faziam fila para tomar um dispendioso mojito em La Bodeguita e em seguida um exorbitante daiquiri em El Floridita, como fizeram Ernest Hemingway, Pablo Neruda, Salvador Allende e tantos outros. O falatório me aborrecia um pouco. Andei a esmo, saboreando ruas estreitas e menos movimentadas, com moradores nas janelas e calçadas. Calle San Ignacio, Cuba, Aguiar, Habana, Compostela, Aguacate, Villegas, Lamparilla, Obrapia, Colon, Refugio novamente, até que parei para comer alguma coisa num boteco popular chamado Donde Adrian, na Calle Consulado. O lugar era pequeno e estava lotado de cubanos de todas as idades e orientações. Sentei-me numa mesa num canto do salão. Meu passatempo, enquanto a comida não vinha, era dirigir meus ouvidos, como uma sonda, para cada mesa ao meu lado, uma de cada vez, ouvindo com atenção as conversas. Não existe filé a cubana em Cuba, foi inventado no Brasil. Mas existe Ropa Vieja, carne desfiada cozida em molho de tomate e pimentões – esse prato se repetiu quase todos os dias em Cuba. Convertendo, paguei 17 reais pela noitada.
No caminho de volta para casa, passei diante do Hotel Inglaterra – o mais antigo e caro de Havana – cuja fachada neoclássica se volta para o Parque Central. Na entrada do hotel, uma pequena banda tocava Dos gardenias, o velho bolero cubano dos anos 1940 que o Buena Vista Social Club lançou para o mundo em 1997. Parei. Aqueles versos – Dos gardenias para ti, que tendrán todo el calor de un beso… – inflamaram minha memória musical, me fazendo lembrar desse e tantos outros boleros que ouvia na vitrola.
Os músicos tocavam num espaço retangular, protegido do público por colunas e cercas treliçadas, em frente à entrada do hotel. Supostamente, tocavam para animar turistas desinteressados – alguns quase dormindo – que bebiam em copos longos nas mesas espalhadas pelo interior da área cercada.
Mas era fora das treliças que a música realmente encontrava seu destino: um grupo de cubanos, frequentadores noturnos do Parque Central, de roupas gastas e passos leves. Lotavam a calçada dançando de rosto colado e aplaudindo entusiasmados cada canção. Após ouvir alguns clássicos, voltei para casa, conversei um pouco com minha anfitriã e adormeci com o ruído distante e casual dos automóveis septuagenários.






Quero conhecer Havana! E toda a ilha também
Nossa, terminei de ler a parte 3 cansada só de imaginar pedalar tanto…