VIETNAGEM, DE SUL A NORTE
Era o final da tarde do domingo de carnaval de 2024 quando aterrizei em Guarulhos, vindo de Havana. O fiscal da Aduana, visivelmente contrariado por estar de plantão no feriado, viu a caixa de papelão fora do padrão habitual do fluxo de ingressantes e mandou-me passá-la pelo raio X. Quando descobriu que tinha lá uma bicicleta, pediu sua nota fiscal. Muito cansado, mas com paciência e educação, expliquei que eu mesmo montei a bicicleta, no Brasil, com peças adquiridas de diversas fontes. A bicicleta não foi comprada em uma loja, nunca teve uma nota fiscal, disse. O fiscal então anunciou que na ausência de documentação que comprovasse a origem brasileira do produto, assumiria que a Filha do Vento… fora comprada por 3 mil dólares na origem do voo que me trouxe a Guarulhos e, portanto, a apreenderia até eu pagar 50% de imposto sobre o excedente da quota de importação, bem como outros 50% de multa por não a declarar.
– Meu senhor, preço pressupõe compradores. Estou vindo de Cuba. Nada custa esse valor lá. Ninguém tem três mil dólares para comprar qualquer coisa naquela ilha miserável. O maior salário em Cuba está em torno de 50 dólares. Um cubano teria que trabalhar cinco anos para juntar essa quantia. Além disso, não existe manufatura de bicicletas de fibra de carbono em Cuba. E a Ilha não consegue importar nada para revender. É impossível eu trazer essa bicicleta de Cuba sem antes tê-la levado para lá!
Tenho especial carinho por aqueles que, como eu, são funcionários públicos. Com cortesia segui argumentando.
– Meu senhor, essa é uma bicicleta artesanal, feita por mim mesmo. Veja, examine, não tem marca, não tem modelo, não tem grife. E está bem usada, os pneus estão gastos, a corrente está cheia de graxa. O quadro está todo riscado. É um absurdo ser taxado por transportar algo que eu mesmo fiz. Além disso, nós dois estamos cansados. Eu venho de um longo voo internacional com escala e o senhor deve estar aqui, imagino, desde ontem à noite.
Mas a conversa com o fiscal ia longe, já passava de uma hora, e começava a me irritar.
– O senhor já pensou em investigar o dono daquele avião com 400 kg de cocaína que a PF pegou mês passado? O piloto está preso, mas sobre o dono da aeronave, não se ouviu um pio… Quinze minutos consultando os arquivos da ANAC com esse seu crachá e o senhor resolveria isso. Mas não, estamos aqui, num domingo de carnaval, discutindo a nota fiscal de uma bicicleta artesanal que eu mesmo fiz, eu mesmo levei para Cuba, eu mesmo trouxe de volta!
O fiscal argumentou que a classe média, arrogante, adora trazer souvenirs na bagagem e sonegar impostos, mas a polícia federal está lá para enquadrar sonegadores.
– Sim, a classe média é danada! Mas, com todo o respeito, acho que o senhor está perdendo seu tempo comigo, gastando dinheiro público à toa e perdendo a oportunidade de fazer algo útil. Agora mesmo, neste carnavalesco final de tarde, alguém deve estar contrabandeando armamentos e drogas ilícitas para milicianos e conhecidas organizações criminais, e não exatamente por essa fila da qual o senhor me tirou. A 50 km daqui, no Porto de Santos, há centenas de containers suspeitos. Atualmente, até nos cascos dos navios os traficantes estão escondendo droga. Que tal dar um pulinho lá? Ou, quem sabe, inspecionar algum aeroporto clandestino no centro-oeste? Ou talvez ainda, alguma embarcação fluvial nas fronteiras da Amazônia brasileira com países andinos?
Àquela altura eu já considerava seriamente a hipótese de ser preso por desacato ao funcionário público. Temia ser enquadrado no crime previsto no artigo 331 do Código Penal Brasileiro, passível de punição com até dois anos de reclusão. Mas eu tinha o firme propósito de lutar até o limite da minha capacidade para sair de GRU com a Filha do Vento… sem pagar sequer um centavo para isso. Foi então que me ocorreu a ideia de abrir o app da AliExpress no meu celular e consultar a compra do quadro. Estava lá o invoice da transação, inclusive com o número do quadro. Também no app do MercadoLivre estava o histórico da compra de quase todas as demais partes da bicicleta. O fiscal ainda tomou meu tempo escrevendo uma porção de coisas no seu sistema enquanto eu ditava o valor pago por cada uma das peças, para só depois liberar minha muamba e me deixar seguir em paz para casa.
Nas primeiras semanas eu era um estrangeiro em meu próprio país. Demorei a me acostumar com famílias dormindo nas ruas, com o noticiário político, com o medo de andar à noite, com a polícia batendo em pivetes, com os elevadores de serviço, com babás pretas vestidas de branco embalando bebês nos Jardins, com as estatísticas de mortes violentas, com o celular escondido na cintura. Mas, depois de um tempo me acostumei. O Haiti está a 80 km de Cuba. Mas, de fato, é aqui.
Enfim, de volta ao Brasil. E o olhar da juventude cubana ainda me assombrava. Eram relembramentos de encontros ao acaso durante o tempo em que serpenteava pelas carreteiras sem fim. Revia olhos marejados de tristeza, misturados com desalento e agonia, que me impactavam enquanto tentava restabelecer uma vida normal.
Talvez compreenda um pouco da agonia desses olhares. Eram os olhos dos filhos dos filhos dos rebeldes que tomaram Havana de assalto. Essa geração não viveu a superexploração neocolonial dos tempos de Fulgêncio. Não trabalhou de sol a sol na lavoura a troco de um prato de comida. Não viveu a total desassistência social. Não conheceu o aviltamento da vida cotidiana. E não pôde viver sua Pequeña Serenata Diurna, os anos dourados da Revolução. Para aqueles jovens, a revolução talvez fosse só uma promessa; a felicidade que não chegou.
OS ARROZAIS DO VIETNÃ
Já há muitos anos, em certos domingos muito bem escolhidos, costumo fazer um treino que chamo de “domingo sem lei”. Basicamente, pego a bike bem cedo, vou para uma estrada e pedalo forte num mesmo sentido até me implodir de cansaço. Nesse ponto, dou meia volta e retorno para casa, nem sempre obtendo êxito. É uma catarse, alteração da consciência por meio de dramática descarga neuro-músculo-hormonal.
Num desses treinos, já no entardecer de um dia que começara muito cedo, quando me dei conta, eu que nunca estive no Sudeste Asiático, pedalava no meio de um típico arrozal vietnamita. Fazia muito calor e a Filha do Vento… progredia lenta e com muito esforço no terreno encharcado. O sol estava se pondo e o espelho d’água refletia o perfil de jovens camponeses curvados arrancando cuidadosamente touceiras de mudas verdes de arroz de viveiros e replantando-as linearmente em canteiros inundados. O rosto daqueles trabalhadores era de paz e felicidade. Apesar do extremo cansaço, saltei da bicicleta e me juntei a eles. Minhas mãos sabiam exatamente como transplantar as mudas. Perdi a noção do tempo.
Não sei ao certo como encontrei o caminho de volta para casa naquele domingo, talvez segunda. Aquele treino-revelação desatou uma dúvida que veio ocupar grande parte do meu tempo e energia. Os herdeiros daquela guerra de todo um povo contra o exército mais equipado do mundo eram felizes?
A revolução socialista é a radicalização da luta pela felicidade.
Meses depois, a Filha do Vento… e eu desembarcamos na Cidade de Ho Chi Minh.
TRAVESSIA
Todo primeiro domingo do mês meu pai me levava de ônibus para assistir ao Festival Tom e Jerry, às dez da manhã, no Cine Metro. Ficava no centro de São Paulo, no coração da Avenida São João. Na saída, o programa era tomar chá com leite no Rei do Mate, pertinho do cinema, quase na esquina com a Avenida Ipiranga. O cinema, que foi um ícone da antiga Cinelândia Paulistana, não resistiu à degradação socioarquitetônica do centro velho. Acabou fechando em 1997. Emblematicamente, hoje o prédio abriga um templo evangélico.
Durante minha infância, nunca aconteceu nada em meu coração enquanto passava por aquele cruzamento posteriormente tão celebrado. Talvez por isso, já adulto, não compreendesse exatamente o encanto do compositor com aquela esquina. E a São Luiz com Consolação? E a Paulista com Brigadeiro? E a Major Sertório com Vila Nova? Não mereciam canção? Achava que o cruzamento era só a conveniência de uma rima.
Agora compreendo. Quando cheguei ao Vietnã eu nada entendi, mas alguma coisa aconteceu no meu coração quando cruzei a Le Lai com Ham Nghi. Percebi que ali havia entrado em outro mundo — talvez em outro universo — com outras cores, outra gramática.
Atravessar a pé uma avenida em Ho Chi Minh – ainda chamada Saigon por seus habitantes – é uma daquelas experiências transformadoras que poucas vezes vivenciamos. Nada mais foi como antes depois que cruzei a Le Lai com a Ham Nghi. Foi ali que entendi o Princípio da Complementaridade, formulado por Niels Bohr há cem anos. Quando coloquei o pé na rua, dissolvi-me em uma onda, que passou a progredir lentamente entre obstáculos que se moviam caoticamente – sobre duas, três, quatro rodas – em velocidades distintas e direções imprevisíveis. A fluência se propagou por entre barreiras móveis e ao tocar a calçada oposta colapsou de volta no meu corpo – são e salvo. Finalmente, cheguei ao Vietnã!
Travessia. É a primeira coisa que um viajante deve aprender em Saigon, e talvez em todo o Vietnã. Principalmente se o viajante é ciclista. A essência da travessia em Saigon é não parar, não correr, não hesitar. É seguir a onda. O olhar é fundamental. Há que fazer contato visual com quem vem em sua direção. O olhar negocia o fluxo, o tempo todo. Calmamente. Diferentemente do Rio de Janeiro, em Saigon o trânsito é lento: dá tempo de pensar. Diferente de Lima, em Saigon o trânsito é silencioso. Quase ninguém buzina. Atravessar a rua em Saigon é como entrar no mar. Não dá para correr. Não dá para parar. É preciso seguir a maré.
Muito além do trânsito, quase tudo em Saigon me causou enorme estranhamento. A começar pelo cà phê trứng que pedi ao garçom na manhã seguinte. Na calçada de um bar em uma esquina movimentada, me equilibrando num minúsculo banquinho de plástico em frente a uma mesinha vermelha tão pequena quanto, examinei o cardápio e pedi esse café porque havia ao lado do nome vietnamita uma frase em inglês explicando: café com ovo. Excelente, pensei. Esperava um ovo frito num prato servido com torradas ao lado de uma xícara grande e fumegante de café. Mas não, o ovo veio batido com o café dentro da xícara!
E o dia todo foi assim, surpresa atrás de surpresa. Para fugir do French Quarter, andei a pé uma dezena de quilômetros, do hotel onde estava até o Mercado Binh Tay, na periferia da cidade. No caminho, orientado por placas e letreiros indecifráveis, passei por ruelas tortuosas hiper habitadas. Caminhei por feiras-livres onde se vendia de maçanetas a cabeças de cabra. Visitei templos religiosos. Almocei uma baguete crocante recheada com carne de porco, patê, maionese, cenoura e nabo em conserva, pepino, coentro e uma boa dose de pimenta. Caminhei por entre bicicletarias e barbearias ao ar livre, onde mecânicos e barbeiros faziam reparos e cabelos na calçada. Vi soldados fazendo exercícios físicos em praças. Vi idosos jogando cartas, crianças brincando na rua. Quando cheguei ao mercado estava tão cansado que mal aproveitei as centenas de barracas justapostas, vendendo alguns artigos conhecidos em meio a tantos outros que mal identificava. Tomei mais um café com ovo (é delicioso!) e voltei com mais uma passageira de mototáxi para o hotel, sem capacete, sem fôlego, sem juízo: uma outra aventura.
No dia seguinte, coloquei a Filha do Vento… numa Van e fomos para Can Tho, 200 quilômetros a sudoeste de Saigon. A cidade fica no meio da borda ocidental do enorme delta do Rio Mekong. Talvez, esse seja o mais importante rio do sudeste asiático. Ele nasce cinco mil quilômetros ao norte, no planalto tibetano. De lá percorre parte da China, Myanmar, Tailândia, Laos, Camboja, para então entrar no Vietnã pelo sul. Ali forma um delta repartindo-se em um punhado de rios transpassados por miríades de igarapés, que circundam e inundam campos de arroz e plantações de frutas tropicais, até finalmente desaguar no chamado Mar da China Meridional.
Imagine um enorme mercado, como o Binh Tay que mencionei acima. Agora, troque o piso de cimento desse mercado pelo Rio Mekong. A seguir, troque as centenas de barracas apinhadas de mercadorias por um sem-número de embarcações lado a lado, também repletas de produtos, flutuando sobre o rio. Esse é o Mercado Flutuante de Cai Rang, na cidade de Can Tho, onde às cinco da manhã tomei uma cuia fumegante de mingau de arroz com miúdos de porco, voltei para a margem onde a Filha do Vento… me esperava e segui pedalando rumo norte.
VIETNAGEM, DE SUL A NORTE
Dois dias depois estava de volta a Saigon. Não entrei na cidade. Dormi numa modestíssima pousada na periferia, para seguir pedalando na manhã seguinte no sentido norte, rumo a Long Khan, onde cheguei no meio da tarde. Apesar de não muito distante de Saigon, Long Khan é uma cidade bastante diferente, com ruas largas, pouco movimentadas, sem aquele formigueiro humano se movendo para todos os lados.
Deixei Long Khan ao amanhecer. Saindo da cidade cruzei meu primeiro arrozal. Ao longo da travessia vietnamita, cruzei dezenas, talvez centenas. O Vietnã, com apenas 1,2% da população mundial, é o terceiro maior exportador de arroz no mundo. Mas o primeiro arrozal é sempre inesquecível. Pedalava para o norte, o arrozal ficava à minha esquerda, recebendo toda aquela luz dourada e rasante das primeiras horas. Parei para olhar os trabalhadores lançando sementes – trazidas num balaio – diretamente no campo alagado. Os raios solares faziam brilhar as sementes que brotavam das mãos daqueles lavradores desenhando arcos na névoa da manhã. Sentei-me no acostamento deslumbrado com a leveza e plasticidade da cena. Pela segunda vez, perdia a noção do tempo num arrozal. Por um momento pensei que involuntariamente voltara ao domingo sem lei que me inspirou vir para cá.
Ao final da primeira semana de pedal ziguezagueando por incontáveis arrozais, estava em Dinh Quán, a uns 200 km ao norte de Saigon. O calor em torno do meio-dia era infernal por aqueles dias. Resolvi então sair pedalando tão logo começasse a clarear no próximo dia, para aproveitar ao máximo a temperatura amena do final da madrugada. O plano original, traçado ainda no Brasil, era pedalar 70 km por pequenas vias terciárias para o norte até Da Téh, dormir e no dia seguinte pedalar outros 70 para o leste até Bao Loc, a porta de entrada das Terras Altas Centrais do Vietnã. Acontece que na noite anterior, ao aprontar a bike para o dia seguinte, me dei conta que nos próximos dois dias pedalaria algo como dois lados de um triângulo equilátero. Isso não faz sentido, pensei. Foi então que tive a infeliz ideia de ir direto de Dinh Quán para Bao Loc, encurtando em um dia o trajeto. Improvisar em viagens é saudável, mas às vezes dá ruim. A explicação desse “erro” no planejamento veio no dia seguinte.
O ganho de altitude entre Dinh Quán e Bao Loc era de mil metros, o que seria razoável se fossem distribuídos uniformemente ao longo do percurso. Mas, não foram. No início do quarto final do trajeto, dei de cara com uma serra de 10 quilômetros de extensão, que praticamente saía do nível de Din Quán e terminava já na altitude de Bao Loc. Isto é, um aclive de 10% ao longo da serra. Pedalar por 10 quilômetros num aclive de 10%, por si só, já é uma pedreira. Mas, para piorar, estava numa via asfaltada muito estreita, de dupla mão, sem acostamento, com tráfego intenso de caminhões indo e vindo, além de Vans, micro-ônibus e pequenos utilitários transportando mercadorias para cima e para baixo. Em estradas, pedalo no acostamento ao meu ritmo. Mas não havia essa opção. Tive que entrar no fluxo – muito lento para os caminhões, mas muito veloz para mim – e pedalar ouvindo caminhão bufando atrás de mim o tempo todo. Praticamente, não havia acostamento. A pista onde estava acabava quase abruptamente numa mureta de proteção. Para me acalmar, repetia o tempo todo o mantra que há muito uso em situações de perigo de vida: ninguém morre na véspera, ninguém morre na véspera, ninguém morre na véspera.
Funcionou! Foi um dos maiores ciclo-perrengues que passei na vida, só superado por uma outra situação semelhante no Paquistão, mas… sem mureta de proteção. Creio ter pago nessa serra todos os pecados por ventura cometidos pelos meus pais, meus quatro avós e meus oito bisavós. E como se fora pouco, deixei no caminho uma pensão vitalícia pagando pecados futuros das minhas três filhas, dos meus sete netos e dos bisnetos que certamente virão.
Passei um dia me recuperando em Bao Loc e na manhã seguinte pedalei 100 km até Da Lat, a capital administrativa, econômica e cultural das Terras Altas Centrais. Essa é uma região fresca e montanhosa no centro do país, mais ou menos no meio do caminho entre o Camboja e o litoral, com altitude média de cerca de dois mil metros. Da Lat foi fundada por franceses no final do século XIX para a elite colonizadora se refrescar escapando do calor intenso da maior parte do país. É impossível não perceber a influência francesa na arquitetura de algumas vilas, igrejas, hotéis, escolas pela cidade, que tem até uma réplica horrorosa da Torre Eiffel. Passei cinco dias aqui sem fazer nada, ou quase nada, passeando por colinas nos arredores, admirando as flores em canteiros sem fim pelas ruas centrais, explorando diariamente o mercadão municipal, aproveitando os 13 0C das madrugadas e comendo um fantástico arroz com leite de coco grelhado dentro de bambus verdes, típico da região.
A viagem precisava continuar. Depois de cinco dias vadiando pelos arredores de Da Lat, montei na Filha do Vento… e segui na direção leste pedalando 140 km até a praia. Os primeiros 60 km foram duros; um sobe e desce cansativo por entre colinas até chegar ao Passo Hon Giao, a 1.650 metros de altitude. Daí para frente, só alegria. Seguiram-se 30 km de descidas e curvas e descidas e mais curvas e mais descidas, onde meu único esforço era apertar os freios, até chegar ao nível do mar para então pedalar 50 km no asfalto plano e chegar em Nha Trang.
Enfim, o litoral. Foi a primeira vez que vi o mar no Vietnã. Sob o olhar de quem, como eu, veio de um país tropical abençoado por Deus, tendo passado meses antes pelo caribe cubano, confesso que as praias vietnamitas não estão entre as grandes maravilhas do mundo. Quem sabe, por isso não são muito frequentadas. O país é densamente povoado, mas as praias, não. E os banhistas, muitos deles, andam pelas areias usando camisas de mangas compridas, calças e sapatos, o que me chamou muito a atenção. Tiram os sapatos para entrar nas lojas, mas andam calçados na praia. Mais um estranhamento. Mas, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E a alma dos vietnamitas que aqui se aventuravam parecia se divertir muito nas areias.
Percorri o trecho litorâneo com muita calma e contemplação. Pedalava por entre cidades, povoados, vilas de pescadores, percursos em torno de 60 km, o que na planitude do litoral me custavam entre três e cinco horas ao dia, dependendo do vento. O rumo era norte, tendo sempre o mar à minha direita. Às vezes tinha alguns penhascos a escalar, mas todo o esforço era recompensado pela vista lá de cima e o arrepio no estômago nas descidas pirambeiras abaixo até chegar ao mar novamente. Na medida em que avançava, mais e mais penetrava o Vietnã profundo, até que lá pelo quinto dia no litoral cheguei a Tam Quan, um pequeno povoado onde centenas de pequenas embarcações, quase todas de madeira pintada em azul e vermelho, lotavam uma baia cheia de ancoradouros. Tudo gira em torno da pesca em Tam Quan. Foi lá que passei a virada do ano vietnamita. Eu era o único ocidental na cidade. Por onde andava era apontado a dedo, o que me causava algum desconforto. As crianças, desinibidas que são, corriam atrás de mim gritando how are you what´s your name sem parar. Minha ceia de ano novo foi num bar de pescadores muitíssimo movimentado, onde provei algumas estranhíssimas porções inclassificáveis pelos rótulos salgado, doce, azedo, amargo aos quais estou familiarizado.
Seguiu-se uma semana onde chovia todo dia, e às vezes o dia todo. Não me importo em pedalar na chuva, contanto que celular, passaporte e minha muda de roupa estejam protegidos. A chuva é reflexiva. A chuva entristece a paisagem. Não deixa ver as montanhas, não deixa ver o horizonte. A chuva traz o olhar para perto. Traz o olhar para dentro. Ninguém é totalmente feliz num dia chuvoso.
Felizmente, o período chuvoso não durou mais que uma semana e logo vieram o sol e uma tríade de cidades maiores, alegres, movimentadas e próximas umas das outras: Hoi An, Da Nang e Hue. As cidades, cada uma com seu encanto próprio, pausaram meu status de celebridade assustada devolvendo-me o conforto de ser não mais que um turista, talvez um pouco excêntrico, na multidão. Havia ainda ecos das festividades de ano novo. Famílias limpavam as fachadas de suas casas, queimavam papéis e celebravam mais um ano vivido.
E continuei subindo o costão vietnamita em ritmo contemplativo. Os dias eram todos iguais, mas cada um a seu modo particular. Sempre que possível, fazia minhas refeições em mercados, comi todos os diferentes peixes e mariscos do universo, preparados com os mais exóticos temperos locais.
Cidades, vilas, povoados passavam por mim. Após cerca de 1.400 km pedalados no litoral vietnamita, ao longo de quase um mês, cheguei à unêsquica Baía de Ha Long, onde montanhas brotam do mar.
Imagine uma imensa cratera de onde brotam duas mil pequenas ilhotas, algumas delas espigadas apontando para o céu. Imagine agora que essa enorme cratera está inundada de mar. Assim é a Baía de Ha Long, o cenário mais icônico e surreal do Vietnã.
Há muito tempo, quando os vietnamitas começavam a construir seu país, foram invadidos por guerreiros, vindos do Norte, saqueando tudo o que encontravam. O povo, desesperado, rezou para os céus pedindo ajuda. Comovido, o deus supremo dos céus enviou uma Mãe Dragona e seus Filhos Dragões para ajudar o povo vietnamita. Enquanto os invasores navegavam pelo mar do leste em suas grandes embarcações, prontos para um ataque final, os dragões desceram dos céus cuspindo inúmeras joias em direção ao mar. Essas joias não afundaram; transformaram-se em enormes e imponentes ilhotas de rocha, emergindo das águas. Os navios invasores, aturdidos, colidiram com as rochas insurgentes, destroçando-se em pedaços e afundando para sempre. Os invasores foram derrotados. Após a vitória, encantados com a bela paisagem que criaram, Mãe Dragona e seus filhos decidiram não retornar aos céus, continuando para sempre a proteger não apenas a Baía de Ha Long, mas todo o Vietnã. Essa é a lenda, que me foi contada por vários vietnamitas ao longo do caminho. Certamente, o exército americano não conhecia essa história.
Passei alguns dias na cidade de Ha Long, em frente à baía dos dragões, tomando fôlego para a grande pedalada final. Me sentia um pouco esgotado. Desde que saí de Can Tho, 50 dias atrás, já havia pedalado um pouco mais de dois mil quilômetros em asfalto, terra batida, barro, areia, pirambeiras acima e abaixo. Quando senti que dava, saí muito cedo para encarar os 150 km que me separavam de Hanoi. Ao anoitecer, entrei triunfante na lendária cidade que tanto povoou meus pensamentos desde a adolescência.
Fisicamente, estava alquebrado. Confesso que não foi fácil pedalar 2.200 km em sete semanas. Senti medo de adoecer, de sofrer um acidente nos caminhos por onde passei, de me perder, de me desidratar severamente. Dividi quarto com pernilongos e pulgas em hotéis impensáveis. Errei a rota diversas vezes. Depois de quatro horas pedalando as mãos formigavam. Na quinta hora começava a dor lombar. Na sexta, a cervical. A partir da oitava hora doía tudo. Nos dias de chuva as mãos ficavam enrugadas. Cachorros avançaram em mim. Tive diarreia. De vez em quando um mosquito me entrava no olho. E teve um guarda que me impediu de entrar num túnel num final de tarde quando estava quase no meu destino, o que me custou 40 km a mais de pedal. Enfim, foi outro passo maior que a perna.
Um dos maiores problemas que tive que resolver no caminho foi a reposição de energia e eletrólitos ao longo da jornada. Nos primeiros dias fazia refeições duplicadas; dois almoços e duas jantas. Mas meu estômago não aceitou bem esse esquema. Foi então que na primeira noite após passar por Saigon rumo norte, saí a pé às 4 horas, muito escuro ainda, para fotografar a montagem de uma feira perto de onde me hospedava. Numa praça, vendedores e vendedoras chegavam de várias direções com balaios repletos de peixes, verduras, legumes e frutas. Ao lado, idosas com roupas largas e leques muito coloridos dançavam uma coreografia lenta e majestosa ao som de música tradicional vinda de um aparelho de som antigo, plugado na tomada ao pé de uma árvore. Nas barracas dessa feira conheci o pho, o prato nacional do Vietnã, ubíquo, do qual me tornei um fervoroso admirador desde que o tomei pela primeira vez. É uma fumegante sopa de macarrão de arroz, com caldo muito aromático, coberto com finas fatias de carne de boi (pho bo) ou frango desfiado (pho ga), folhas verdes diferentes das que há no Brasil e pimenta. Numa panela grande e pesada, no meio da madrugada, pedaços de ossos bovinos de fêmur e tíbia com medula, pedaços de pescoço, costelas, rabo, outras juntas são misturados com canela, cardamomo, sementes de coentro e erva-doce, anis, cravo, cebola, gengibre e postos para queimar lentamente por cozinheiras em diversas barracas. Após, adiciona-se água, sal, açúcar e fervem-se os ossos queimados nos temperos por horas. Ao amanhecer o caldo está pronto para cozer o macarrão e receber cortes finos e crus de carne bovina ou frango, almôndegas, brotos de feijão, folhas verdes, coentro, limão e pimenta.
O pho é servido numa cuia grande, soltando fumaça. O primeiro passo é apreciar a beleza e equilíbrio do prato, respirar a fragrância atraente do caldo e tentar adivinhar a composição de ervas usada. Depois, é hora de ajustar o sabor, adicionar limão, sal, talvez um toque de hoisin para uma doçura salgada, sriracha para apimentar. Em alguns botecos, as verduras, e às vezes fatias finas de jalapeños e pimentas vermelhas, são servidas à parte, para uma completa customização do pho. E então, finalmente, é hora de ajoelhar-se e tomar aquele caldo maravilhoso.
O pho desempenhou o mesmo papel que a minuta de peixe desempenhara para mim em Cuba. Com uma proporção carboidrato:proteína grosseiramente igual a 4:1, ideal para consumo durante exercícios prolongados, o pho foi meu repositório de água, sais, proteína, carboidrato e prazer durante longos e extenuantes pedais sob sol inclemente no Vietnã. Em qualquer quadra de uma cidade vietnamita, é difícil não encontrar uma barraca vendendo pho. O mesmo ocorre nas estradas. Assim, a cada duas horas de pedal eu parava para me reabastecer.
Para além da questão física e alimentar, o impacto emocional dessa viagem também foi enorme. Encarava uma surpresa a cada dia, das quais a mais devastadora aconteceu certa vez subindo pelo litoral em modo chuva o dia todo. Na cidade de Quang Ngãi, mais precisamente na Comuna de Tinh Khe, passei pelo local mais silencioso e devastador de toda a viagem: o Memorial Son My. Ele foi construído em 1978 numa região rural, plana, tropical, cercada de arrozais e coqueiros, onde antes havia uma aldeia chamada Tu´Cung. Em 16 de março de 1968, o exército americano torturou, estuprou, queimou e matou os 504 moradores dessa aldeia. Não havia sequer um soldado vietnamita em toda a aldeia, apenas mulheres, crianças, bebês e idosos. A ordem dada pelo comandante da operação era matar tudo o que se movesse. Os requintes de crueldade ficaram por conta dos soldados ensadecidos. No Vietnã, esse episódio é conhecido como o Massacre de Son My, ganhando repercussão internacional no ocidente como o Massacre de My Lai.
Não é um memorial grandioso, no sentido monumental soviético clássico, mas um espaço simples de reflexão e silêncio muito forte. Em vários pontos, pequenas placas indicam exatamente onde famílias inteiras morreram. Na encosta de um fosso com água no fundo há uma placa dizendo que esse é o exato local onde 170 moradores foram jogados vivos pelos soldados americanos e metralhados a queima roupa. Algumas fundações queimadas de casas foram preservadas.
A água da chuva salpicava numa grandiosa escultura em pedra cinza clara, o elemento mais impactante do local. A esposa do escultor dessa obra era moradora da aldeia. Tinha 13 anos no dia do massacre e sobreviveu fingindo-se de morta, literalmente. A escultura mostra figuras camponesas vietnamitas em sofrimento e resistência: uma mulher em pé erguendo o punho direito em tom altivo e desafiador, segurando uma criança morta no outro braço; outra sentada protegendo um idoso; outra deitada protegendo uma criança. O conjunto é típico do realismo socialista vietnamita, com rostos angulosos, expressando dor, dignidade e resistência. A estátua parece surgir da terra, como a condensação mineral do sofrimento humano daquele lugar. A chuva no rosto das camponesas de pedra eram lágrimas de dor e revolta.
Ao lado do monumento havia um museu pequeno, mas emocionalmente muito forte. Nele aparecem fotografias tiradas durante e logo após o massacre — feitas pelo fotógrafo militar do pelotão, Ronald Haeberle. As imagens são chocantes: crianças aterrorizadas, mulheres prestes a serem executadas, cadáveres em canais de irrigação. Há também objetos pessoais recuperados, trajes infantis, relatos de sobreviventes e um mural com os nomes, sexo e idade das 504 vítimas, dentre as quais inúmeras crianças.
O céu cinza chumbo, a garoa insistente, a névoa, o silencio, os arrozais e coqueiros ondulando ao vento, tudo isso criava uma sensação de insólita angústia e enorme mal-estar. Saí de lá arrasado, com a bike pesando 100 toneladas de indignação. Pior que Nixon, eram seus guardas de quarteirão.
Ao deixar o memorial, pedalei sem parar até o anoitecer, num estirão em ritmo acelerado para fugir daquele ambiente impregnado de tragédia e miséria humana.
QUEM ESTÁ NO COMANDO?
Durante a viagem, a iconografia da luta anticolonial e da Revolução Socialista era marcante. Se expressava em bandeiras vermelhas, com a icônica estrela amarela ao centro, tremulando enfileiradas em quase todos os parapeitos de quase todas as pontes do país. Foices e martelos, imagens de Ho Chi Minh estavam em todo lugar. Cruzei centenas de outdoors épicos em praças, ruas, estradas. Visitei museus celebrando batalhas heroicas. Assisti veteranos orgulhosamente trajados em desfiles comemorativos. Ao longo do percurso observei nas pessoas um forte orgulho nacional, uma memória viva da guerra – que acabou há mais de 50 anos – e a percepção de que a independência foi conquistada por esforço coletivo.
O que mais me chamou a atenção no Vietnã foi ter conversado com um sem-número de pessoas sorridentes, brincalhonas, otimistas; e muito gregárias. Voltei de lá com a impressão de que elas, normalmente, não andam sozinhas. Nas ruas – e mercados, bares, cafés, comércios, shoppings – estavam em grupo, muito mais do que andando sós. Casais com crianças enchiam praças e passeios o dia todo aos finais de semana. Mesmo em motocicletas, um transporte tipicamente individual no ocidente, andavam em dois, três e até quatro – comumente um casal com duas crianças. Obviamente, famílias preferiam andar de automóvel, mas a falta dele não impedia que compartilhassem, sorridentes, uma motocicleta.
Nos 2.200 km pedalados observei uma sociedade em intensa atividade. Motos, muitas motos, andando para todo lado. Havia pequenos negócios concorridos nas ruas centrais por onde passava. As lojas estavam cheias, de produtos e consumidores. A construção civil parecia estar a pleno vapor, com prédios, casas, conjuntos habitacionais, pontes, estradas brotando. Os restaurantes, sempre cheios. Havia turismo interno significativo. Nas cidades maiores encontrei um e outro shopping center com grifes internacionais e nível de sofisticação e consumo semelhantes aos que servem a elite brasileira. E as lojas de luxo conviviam nas avenidas lado a lado com a iconografia da revolução. Pedalando minha bicicleta nas regiões de Saigon e Hanoi, passei em frente a plantas de empresas do norte global que produzem eletrônicos de ponta, tais como Samsung Electronics, Intel, Foxconn, LG Electronics, Canon, Panasonic, Sharp Corporation, Amkor Technology.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a frequência notável de matrimônios. Havia casamentos por todos os lados, muito celebrados nos diversos estratos sociais. Quando não estava vestido de ciclista, entrava nessas festas como um penetra. Com minha câmera na mão, me passava por mais um fotógrafo contratado pelos noivos. Brindei com noivos em casas humildes da periferia, buffets e mansões. Até casamento coletivo, com mais de uma dezena de noivos, presenciei. Talvez seja esta uma atividade sazonal do Vietnã, dos meses de janeiro e fevereiro quando estive por lá — período que cerca as celebrações do Tet, o Ano Novo Lunar —, assim como maio é o mês das noivas no Brasil. Mas minha intuição diz que esse aparente exagero de casamentos é a expressão de uma aposta no futuro.
A desigualdade social era perceptível mesmo para um forasteiro como eu. Cruzei com muitos vietnamitas aparentando pobreza. Testemunhei famílias numerosas e multigeracionais vivendo em pequenos cômodos insalubres em Saigon e Hanoi. Vi idosos desassistidos em suas casas. Mesmo assim, em toda viagem, encontrei apenas uma mãe com uma criança de colo vivendo aparentemente na rua. Essa cena me marcou tanto pelo inusitado, que a tenho na memória em detalhes até agora. No outro lado do espectro, muitos vietnamitas ostentavam luxo em suas casas, seus carros, seus trajes, seus hábitos.
Tudo isso somado, minha impressão é que os vietnamitas têm uma vida material satisfatória. Regressei convencido de que a alegria ocupa um lugar importante na vida desse povo. Não tenho como medir isso. Me baseio nos sorrisos e gentilezas que testemunhei por toda parte; na quantidade de jovens planejando o futuro que encontrei.
Como conseguiram?
Como esse país alegre, cheio de obras, com tantas motocicletas, pequenos negócios, setores tecnológicos de ponta, jovens fazendo planos para o futuro pode ser o mesmo Vietnã que cinquenta anos atrás aparecia aos olhos do mundo sob bombas, napalm e destruição? O mesmo país que fora devastado por três décadas e meia consecutivas de uma guerra feroz contra japoneses, franceses, estadunidenses… e chineses? Que saiu da guerra depauperado, isolado, com infraestrutura em frangalhos e sem um mercado consumidor relevante?
A história recente do Vietnã notabiliza a passagem de uma sociedade principalmente agrícola e descolada de cadeias globais de valor para uma urbanizada, industrializada e internacionalmente conectada. Regionalmente, o Vietnã não tem esse monopólio. Outras nações do sudeste e leste asiático também assim evoluíram. Mas o Vietnã foi a única que emergiu de 35 anos de guerra em seu território partindo de uma base agrícola destruída e isolada para o status de fábrica do mundo.
Suspeito que a resposta para esse enigma que me intrigava a cada volta do pedal atende no idioma vietnamita por duas palavras: Đổi Mới, traduzidas como “renovação”, e que me permito chamar simplesmente por Doi Moi.
Doi Moi foi o conjunto de reformas adotadas pelo Vietnã a partir de 1986, quando o país enfrentava uma profunda crise econômica. Após anos de planejamento centralizado nos moldes soviéticos, a produção agrícola era insuficiente, havia escassez de bens de consumo, inflação elevada e baixo crescimento econômico. A partir do que provavelmente foi a mais importante decisão tomada após a reunificação do país, o VI Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietnã, em 1986, iniciou uma gradual abertura da economia, permitindo a atividade privada, ampliando a autonomia dos produtores rurais, incentivando o empreendedorismo e atraindo investimentos estrangeiros. O objetivo era criar mecanismos de mercado capazes de aumentar a produção e melhorar as condições de vida da população, preservando a estabilidade política.
Os resultados foram extraordinários. Em poucas décadas, o Vietnã transformou-se de um dos países mais pobres do mundo em uma das economias mais dinâmicas da Ásia. A produção agrícola cresceu rapidamente, o país tornou-se um dos maiores exportadores mundiais de arroz, café e produtos manufaturados, e milhões de vietnamitas saíram da pobreza. Grandes empresas estrangeiras passaram a instalar fábricas no país, integrando-o às cadeias globais de produção de eletrônicos, têxteis e equipamentos industriais.
A implantação foi gradual e pragmática. Primeiro vieram reformas agrícolas, permitindo que famílias rurais recebessem contratos de uso da terra e vendessem sua produção. Depois foram liberadas pequenas empresas privadas, flexibilizados os preços e abertas as portas para o investimento estrangeiro. Na década de 1990, o Vietnã aprofundou sua integração internacional, normalizou relações com diversos países e passou a atrair empresas multinacionais, tornando-se membro da Organização Mundial do Comércio em 2007. Os EUA suspenderam o embargo comercia contra o Vietnã em 1994 e no ano seguinte reataram suas relações diplomáticas com o país.
Os benefícios do crescimento econômico não foram distribuídos uniformemente. As regiões de Saigon, Hanoi e polos industriais do norte enriqueceram mais rapidamente que regiões rurais remotas. Grupos étnicos minoritários se beneficiaram menos. Trabalhadores qualificados se beneficiaram mais. Proprietários de negócios tiveram ganho maior que assalariados comuns. Entretanto, se agora há super ricos no Vietnã, a pobreza extrema passou de cerca de 75% da população para algo em torno de 2%. Tudo isso em apenas 40 anos.
O meio ambiente sofreu. Grandes cidades tornaram-se mais poluídas, alguns rios próximos a áreas industriais receberam grandes quantidades de efluentes urbanos e industriais sem tratamento adequado e houve exploração madeireira não sustentável em determinadas áreas florestais. A rápida industrialização e urbanização também aumentaram a geração de resíduos, pressionaram ecossistemas costeiros e contribuíram para a perda de áreas naturais. O Vietnã repetiu, em escala menor, um padrão observado em muitos países em desenvolvimento: primeiro crescer, depois lidar com os custos ambientais do crescimento.
Alegria e otimismo, prosperidade, desigualdade, custo ambiental – foi o que observei durante 2.200 km pedalados ao longo de 7 semanas.
Seria tentador atribuir esse ambiente de otimismo apenas ao crescimento econômico das últimas décadas. Mas suspeito que haja, ao menos, outro componente. Povos que atravessaram guerras prolongadas, perdas e sacrifícios coletivos parecem, por vezes, desenvolver uma notável valorização da vida cotidiana. Quem sabe parte da alegria vietnamita tenha raízes não apenas na prosperidade recente, mas também na memória de tudo o que foi superado?
Enquanto estive na Baía Ha Long, um turista com sotaque texano comentou comigo que a guerra de nada valeu pois o país voltara ao capitalismo. Apontava como prova definitiva de sua tese o número de multinacionais e grifes de luxo operando no país. Concordei com ele para terminar ali nossa conversa e seguir aproveitando a paisagem. Me confortava saber que quem estava no comando do processo era o Partido Comunista do Vietnã.














