post

ARGENTINA

Em Foz do Iguaçu cruzamos a fronteira com a Argentina, trocamos reais por pesos a 2:1 e entramos na terra de Maradona. Nossa expectativa era uma rigorosa inspeção na aduana, guardas, exigências de cambão, dois triângulos, caixa de primeiros socorros, seguro contra terceiros e tantas outras coisas que oficialmente são exigidas de turistas estrangeiros para transitar por aqui. Que nada! O guarda da aduana nem olhou na nossa cara. Inspecionou o passaporte, carimbou e “buena viaje”. Não durou um minuto esse processo. Foi um pouco frustrante. Nossa primeira fronteira… fizemos a lição de casa direitinho mas ninguém quis ver. Será sempre assim, perguntamos a nós mesmos. Infelizmente, não. Mais adiante na viagem sentimos saudades dessa tranqüilidade.

Entrando na Argentina pela Ruta Nacional 12

Pegamos a “Ruta Nacional 12”, que não deixa de ser uma continuação da BR-469 que nos trouxe até Foz, e seguimos rumo a Corrientes. A estrada margeia o rio Paraná por toda a fronteira com o Paraguai. No dia seguinte pegamos uma longa e penosa estrada até chegarmos a Salta, capital da província de mesmo nome.

Na medida em que nos deslocávamos para o norte, mais e mais a paisagem se transformava, até que em Salta entramos na Puna, altiplano árido que abrange o extremo noroeste argentino, norte do Chile, sul da Bolívia, se estendendo até o extremo sul do Peru.

Salta é uma cidade grande, com quase 400 mil habitantes, 1.350 metros acima do nível do mar. Passamos alguns dias na cidade andando por suas praças e experimentando meticulosamente uma infinidade de diferentes tipos de empanadas salteñas. Exquisitísimas! O vinho bom é barato, o que deixou as empanadas ainda mais saborosas. Visitamos o surpreendente “Museu Argentino de Alta Montanha”, passeamos pela feira de rua sob uma inesperada chuva forte.

No Museu, uma visão e uma história surpreendente. Os corpos mumificados de duas crianças e uma adolescente, encontrados há dez anos no topo do Vulcão Llullaillaco, perto da fronteira com o Chile, estão lá depositados. As Múmias de Llullaillaco, como são chamadas, foram sacrificadas há 500 anos, mas seu estado de conservação é tamanho que parecem estar prestes a acordar a qualquer momento. Foram encontradas a quase sete mil metros de altitude por uma expedição de arqueólogos argentinos e de outras nacionalidades, que partiu de Salta em 1999. No auge da civilização inca crianças de várias comunidades eram levadas por suas famílias para Cuzco, o centro do império. Lá, em cerimônias religiosas, as mais bonitas e inteligentes eram escolhidas e levadas à pé por centenas de quilômetros até o topo das mais altas montanhas, onde em trajes de festa eram alcoolizadas com uma bebida feita do milho e, já em coma, depositadas em covas com seus brinquedos e alguns alimentos. Para nós, estarrecidos com essa história cruel, elas morreram de frio e hipóxia no topo do Llullaillaco. Para as suas comunidades elas não morreram, ao contrário, se imortalizaram, foram se encontrar com os deuses e pedir fertilidade e boa colheita para suas aldeias. Conversamos sobre essa história com um descendente inca numa praça de Salta. Ele insinuou que há dezenas de outras múmias na Puna, em lugares sagrados, mantidos em segredo pelas comunidades indígenas.

Quebrada de Humahuaca

Após alguns dias em Salta, partimos para explorar as terras altas da Puna argentina. Subimos norte em direção à Quebrada de Humahuaca. Após passar pela cidade de San Salvador de Jujuy, o caminho é formado por 170 quilômetros de sucessivos vales à beira do Rio Grande, margeados por montanhas altas e coloridas por diferentes minérios, até bem próximo da fronteira com a Bolívia. Muitos marrons e vermelhos, amarelos, verdes, roxos, preto. No caminho visitamos diversos povoados: Leon, Volcán, Tumbaya, Purmamarca, Maimará, Tilcara, Huacalera, Uquia. Essa região foi declarada “Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade” pela UNESCO.

Paramos em Humahuaca – 8 mil habitantes, quase três mil metros de altitude – onde passamos três dias. As ruas são estreitas, empoeiradas, com calçadas de pedra. As casas têm paredes grossas e coloridas, de adobe. O ar é frio, seco, rarefeito. Crianças de rostos índios e felizes brincam na praça central. Este é um antigo assentamento indígena, os Omaguacas. Suas tradições estão em toda parte.

Humahuaca

Perdemos um pouco a noção do tempo em Humahuaca. O sol do meio dia é forte de deserto.  A luz é intensa. O tempo anda devagar. Não há sinais do século XXI. Parece que as coisas sempre estiveram e estarão lá como sempre. Paramos numa pousada simpática, cuja dona era bonita. No primeiro dia deixou nosso café da manhã na porta do quarto e se foi. No segundo, bateu na porta, entrou,  deixou o café na mesa e saiu. No terceiro dia entrou sem bater, sem café e sem roupa; deitou na cama ao lado e adormeceu sorrindo. Justo agora que nos acostumamos com a altitude, perdemos o fôlego com essa visita inesperada e embaraçosa.

No dia seguinte saímos cedo de Humahuaca, sem café, retornamos pela Quabrada até Purmamarca, na Serra das Sete Cores, viramos oeste e subimos uma imensa cadeia de montanhas. Belíssima e dramática subida até 4.200 metros. Daí descemos para  Salinas Grandes, a 3.400 metros e pegamos um longo caminho de rípia rodeando um salar, ermo, seco, com isoladas casas de adobe raras  na paisagem desoladora. Foram infinitos 150 quilômetros que nos levaram a San Antônio de Los Cobre.

subida para San António de los Cobres

Este trecho judiou demais da ONÇA e da nossa coluna. Tivemos nosso primeiro problema mecânico da viagem. Dois amortecedores se danificaram. Até aí, tudo bem. A ONÇA estava estável e continuamos sem problema, pensando em trocar os amortecedores danificados, mais à frente, por um par sobressalente que trouxemos. Mas, lá pelo meio do trecho, o carro começou a “puxar” para a esquerda, e isso foi se acentuando cada vez mais ao longo de alguns quilômetros. Paramos para verificar o que acontecia. A roda dianteira direita tinha um jogo estranho. Levantamos o carro com o hi-lift e… percebemos que tínhamos perdido um dos dois parafusos do garfo superior (e o outro estava frouxo), que mantêm a roda presa e o carro alinhado. O lugar que o parafuso que sobrou tinha um acesso muito difícil. Apertamos o parafuso da melhor maneira que pudemos e seguimos com todo cuidado até San Antônio.

San António de los Cobres

San Antônio de los Cobres é o que sobrou de um povoado que se formou em torno de uma antiga mineração de cobre e prata. Isolada e perdida, com seus dois mil habitantes, 3.700 metros acima do nível do mar. É incrível como em um só dia a paisagem mudou de forma tão radical. A profusão de cores e vida da Quebrada de Humahuaca terminou. Aqui tudo é de um tom pastel, empoeirado. As casas são pequenas e pobres. As ruas são de terra. O sentimento é de desolação.

Conseguimos encontrar um mecânico em San Antônio. Juntos trocamos os amortecedores, desmontamos e recolocamos a roda que quase se soltou algumas horas atrás, e tudo pareceu que voltou ao normal.

Passada a tensão com os problemas da ONÇA, aproveitamos o resto da tarde para andar um pouco pelo povoado e conversar com pessoas do lugar. Posto de gasolina é um ótimo lugar para bater papo. Sempre tem alguém que se aproxima puxando conversa.

O céu da Puna é famoso. Em San Antônio a altitude, a pouca umidade, a quase ausência de luz artificial e esse ambiente lunar deixam o céu ainda mais deslumbrante e enigmático. Será que tem alguém nos vendo do outro lado do universo? Naquela noite sentimos que sim. Sim, não estamos sozinhos. Seria um grande desperdício de espaço.

Na manhã seguinte deixamos San Antônio pelo Paso de Sico, longo caminho de ripia que nos levou para o Chile. Vivemos uma outra Argentina, sem tango, sem infelices ilusiones, sem empáfia portenha. E ainda assim, cheia de gente simples mas orgulhosa de sua cultura e tradições.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: