post

EQUADOR

Entramos no Equador pela cidade de Huaquillas. Os trâmites foram difíceis. A primeira dificuldade foi encontrar a Aduana. Entramos pela “ponte nova”, vindos de Zurumilla, no Peru. Mas a Aduana fica na “ponte velha”. Foram horas de desacerto procurando essa ponte. Não havia uma placa sequer indicando um lugar tão obviamente procurado. Conversamos com muita gente atenciosa nas ruas, pedindo informações. Mas a comunicação estava particularmente difícil naquele dia.

Não falamos espanhol com fluência, nem o pessoal aqui entende português. Mas, além da barreira do idioma, tem outras dificuldades que às vezes emperram nossa orientação pelas ruas. Uma delas, que custamos a perceber, é que as palavras “derecha” e “izquierda” nem sempre querem dizer direita e esquerda como entendemos no Brasil. Em cerca de 40% das vezes que nossos interlocutores nos mandam virar para a “derecha”, na verdade devemos ir para a esquerda. Apelidamos essa direção de “la otra derecha”. Tem também “la otra izquierda”, esta curiosamente menos frequente (uns 20% de incidência, em nossa estatística). Uma boa dica é olhar para as mãos da pessoa. As mãos não erram. Se o hermano nos manda para a “derecha” e aponta para a esquerda, é para lá que temos que ir. Para melhorar nossa vida, criamos o FCD, fator de correção de distância, estimado aqui no Equador como em torno de 2,5. Se dizem que fica duas quadras adiante, pode esperar que são mais ou menos cinco. Se dizem que faltam quatro quilômetros para chegarmos, faltam uns dez. E assim vai.

Depois de muito desatino pelas ruas e ruelas de Huaquillas, finalmente encontramos a ponte velha. Mas cadê a Aduana? Não existe uma placa dizendo coisas óbvias, como “Bienvenido a Ecuador”, contendo instruções para os trâmites de imigração. A ponte velha é uma estrutura de cimento e ferro que liga a balbúrdia peruana à desordem equatoriana. Uma multidão circula caoticamente pela ponte. Crianças empurrando carrinhos de mão cheios de frutas, moto-taxis, animais, vendedores ambulantes, músicos, trocadores de dinheiro, soldados, batedores de carteira, carrinhos de comida se movimentando em todas as direções.

Deixamos a ONÇA no meio-fio e saímos procurando. Avistamos uma portinha com um policial fardado na frente e desconfiamos que era ali. E era! Encontramos. Mas o guarda não conseguia entender o nosso caso. Um carro, do Brasil, entrando no Equador, e que não iria voltar por ali. Além disso, ele não conseguia  registrar os nossos dados no sistema de informações recentemente computadorizado da Aduana. Quando entrava a marca e o ano da ONÇA não havia o modelo correto. Tentamos “enganar” o sistema (foi sugestão do guarda) colocando outro modelo, mas aí o tal sistema não aceitava o número do chassi. O sistema também queria saber por qual estrada sairíamos do país, mas a ONÇA sairá por um porto. Desnecessário dizer que essa opção não existia no sistema.  Depois de uma hora e meia tentando várias alternativas, fomos registrados como um Jeep 1992 sem modelo especificado, chassi desconhecido, que sairá do país pela Colômbia. Finalizado o processo, o guarda gravou os dados num pen-drive e saiu a pé para a cidade a procura de um lugar para imprimir o documento gerado. Uma hora mais tarde voltou sorrindo com duas folhas impressas, nos entregou, e, como sempre, “buena viaje”. No início essa situação toda gerou muito estresse. Mas depois de algum tempo relaxamos, esquecemos nossos planos para o dia e começamos a nos divertir com essa experiência surrealista.

A boa notícia do dia foi o preço do diesel. Convertido em reais, o litro custava 40 centavos. Mas junto veio a má notícia: não tinha. O combustível estava racionado no país. Andamos por vários postos com o ponteirinho na reserva e o coração na mão, até que encontramos uma fila imensa na frente de um posto com combustível. Abastecemos. Ôh dia complicado esse! Resolvemos passar a noite em Huaquilla mesmo e seguir viagem no dia seguinte.

Na manhã seguinte partimos para Guayaquil. Foram 190 quilômetros de uma estrada muito movimentada, pista única, ladeada em boa parte por imensos bananais. Guayaquil é uma cidade grande e moderna, se comparada a outras equatorianas. Sua maior atração é o Malecón, um parque com jardins e atrações populares com cerca de 3,5 quilômetros de extensão à margem esquerda do Rio Guyas. Nele, pobres e ricos passeiam lado a lado por praças, quadras esportivas, lojas de artesanato, cinemas, museus, sempre de frente para o enorme rio. O Malecón chega até a ponta da foz do Guyas, onde ficava um grande forte que protegia a cidade contra piratas. Hoje o forte é um centro preservado que conta parte desta história. O prato feito é bom e barato e a cerveja deliciosa na beira do rio.

A fronteira entre a América do Sul e a América Central é uma área não muito grande de floresta densa e terra alagadiça, chamada Dárien Gap, que une a Província de Dárien no Panamá à Província de Choco na Colômbia.  Pouquíssimos aventureiros no mundo cruzaram o Dárien Gap de carro ou moto. Não existe um caminho trafegável cruzando essa região. Consequentemente, não há como sair de carro da América do Sul e chegar na América Central. Para o motorista obstinado, as opções viáveis são embarcar o carro do Equador ou da Venezuela para o Panamá.

embarque da ONÇA em Guayaquil

Nossa grande tarefa em Guayaquil era embarcar a ONÇA para a Cidade do Panamá. Este foi um lento e burocrático processo. Imaginávamos que chegaríamos em um balcão de uma transportadora marítma e resolveríamos tudo ali. Engano. Simplificando a estória, tivemos que contratar uma agência despachante, que preparou uma série de documentos, inclusive, com nossa ajuda, uma lista descrevendo, em espanhol, tudo o que havia dentro da ONÇA. Depois disso, solicitamos à polícia equatoriana um documento descrevendo nosso “histórico de entradas” no Equador. Esse foi um papel timbrado simplesmente dizendo que entramos no país uma única vez, no dia tal, e nos encontramos até o presente no país. Para que isso? Nunca soubemos. De posse de todos os documentos, levamos a ONÇA para um terminal de transportes, onde ela foi colocada num container e enviada para um pátio da polícia equatoriana. Lá, ela foi retirada do container, inspecionada minuciosamente pela polícia anti-narcóticos (com cães farejadores), recolocada no container e enfim enviada ao convés do navio de carga contratado. O processo todo durou 7 dias úteis.

Deixamos a ONÇA no convés do navio e seguimos de mochila para a cidade de Cuenca. Tínhamos alguns dias de folga e aproveitamos para conhecer um pouco do Equador. Para chegar a Cuenca, subimos uma serra escarpada, que chegou a 3.800 metros de altitude. O ônibus, velho, apinhado de gente, serpenteou por pequenos povoados encrustrados em vales e canions profundos. As montanhas são verdes, cobertas de vegetação. A paisagem lembra um pouco as terras altas da Mantiqueira, diferente dos caminhos montanhosos por onde passamos na Argentina, Chile e Peru, onde só havia areia e pedras nas encostas. A estrada era ruim. Não deu para saber se era asfaltada com longos trechos de terra, ou de terra com alguns trechos de asfalto. Mas o melhor cenário estava dentro do ônibus. Mães com crianças de todas as idades, trabalhadores braçais carregando enxadas e outros instrumentos de trabalho, idosos trajando roupas tradicionais e muito coloridas, todos conversando alto entre si, animadamente. Um homem carregava um porco assado inteiro, pendurado em um gancho que ficou amarrado no porta-malas, isto é encima do capô do ônibus. Finalmente chegamos à praça central de Cuenca, 2.700 metros de altitude. Esta é uma típica cidade colonial, com sua Praça de Armas central ostentando casarios que um dia serviram a autoridades administrativas e religiosas espanholas. Ficamos alguns dias em Cuenca e seguimos numa van com alguns turistas de várias nacionalidades rumo a Quito, capital do Equador. Seguimos pela assim chamada Avenida dos Vulcões: um longo vale incrustrado nos Andes, de onde se podem avistar dezenas de vulcões, entre eles os famosos Chiborazo e Cotopaxi (as duas mais altas montanhas do Equador, com 6.268 e 5.897 metros de altitude, respectivamente, ainda em atividade). Esta é uma região para grandes caminhadas, ar rarefeito e fresco e muita contemplação. Ficaríamos semanas por aqui. Mas, infelizmente, a ONÇA já estava no Pacífico. Tinhamos um encontro com ela em alguns dias, o que apressou nosso passo.

Avenida dos Vulcões

Apenas pernoitamos num vilarejo no meio do caminho para chegar no dia seguinte a San Francisco de Quito, ou, simplesmente, Quito, a capital do país. Grave e majestosa são dois adjetivos que se aplicam a essa que foi a primeira cidade do mundo a ser declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. A segunda mais alta capital do planeta, com mais de 2.800 metros de altitude, Quito é realmente deslumbrante, uma jóia encrustrada nas montanhas. Sua beleza fez com que seja conhecida por vários superlativos. Florença da América, pela riqueza de seus museus e templos. Luz da América, por ter incubado movimentos rebeldes que contribuíram para a transformação de algumas colônias espanholas em países independentes. E tantos outros …da América. O lado grave, um pouco escuro, nevoado e pesado da cidade contribuiu para que ela seja também chamada de A Cidade das Lendas. Uma delas fala do padre Manuel Almeida, que aos 17 anos renunciou a toda a sua fortuna e se ordenou noviço no Convento Seráfico de Quito, onde seguiu carreira monástica. Apesar de ter renunciado a todos os seus bens, não renunciou à vida boêmia que levava. Durante anos, escapava todas as noites do convento, e passava a noite tocando violão em festas pagãs. Para tanto, fugia através de um alçapão no teto da capela principal, escalando uma grande escultura de Jesus Crucificado, subindo nos ombros do Próprio e pulando para agarrar a passagem no teto. Numa das noites, Jesus abriu os olhos, se virou para o padre boêmio, que já estava em seus ombros se preparando para pular no alçapão, e perguntou solene:

– Hasta quando, Padre Almeida?

O padre se assustou mas não perdeu a compostura. Respondeu respeitosamente:

– Hasta la vuelta, señor!

E pulou alçapão adentro para cair em mais uma noite de orgia.

Dentre tantas características, Quito tem também o privilégio de ser “visitada”  pela linha do equador, que passa alguns quilômetros ao norte do centro da cidade, num lugar chamado pelos locais de La Mitad Del Mundo. Um pedaço de terra é apenas um pedaço de terra, mas quando é cruzado pelo equador ganha um significado diferente. Existe lá um enorme monumento que marca Latitude 0 00 00, onde pessoas em hemisférios diferentes podem se tocar e conversar frente a frente alegremente.

Deixamos Quito com uma sensação que voltaríamos em breve e voamos para a Cidade do Panamá para encontrar a ONÇA e seguir viagem.

Comments

  1. ISMAEL MATOS MEIRA says:

    Parabéns pela viagem. Gostariamos imenso de chegar aos USA em aventura semelhante. Já fomos até a Bolívia pela costaneira do Chile, duas vezes até Salta e uma vez até Buenos Aires, Mendoza, Córdoba, Tucuman e La Rioja.
    Quando alguém fala DERECHO (dê-ré-tchô) fica muito próximo de DERECHA (dê-rê-tchá); infelizmente DERECHO é DIRETO e DERECHA é DIREITA. Até nos acostumarmos com a pronúncia muito próxima entre as duas palavras entramos errado em muita Calle.

  2. Ola pessoal. Estamos a caminho do Alaska. Vamos transpor nosso carro também de Guayaquil. Voces recomendariam alguma empresa para ajudarnos?

  3. Olá Fernando,
    Veja abaixo um email que recebi da empresa que utilizamos para fazer o transporte da caminhonete para o Panamá:

    ————————————————————————————————————
    From: Bremax – Elizabeth Cedeño
    Date: 2009/12/23
    Subject: ENVIO FACTURAS/SOPORTES DE PAGO EXPORTACION MN MAERSK NIAGARA V 922
    To: Ricardo Cordeiro
    Cc: Bremax – Lenny Castro , Bremax – Anibal Cabello

    Estimado Ricardo,

    Adjunto encontrarà los soportes de los pagos realizados a nuestra compañìa por la exportaciòn de su vehìculo con destino a Balboa.

    Best Regards,
    Elizabeth Cedeño G. Ing.
    Commercial Department
    BREMAX S.A.
    Phone: 593-42530000 ext. 215
    Fax: 593-42325992
    ———————————————————————————————————-

    Chama-se Bremax. Se ainda existir, converse com eles.
    Entretanto, há uns dois anos, um conhecido meu me informou que existiria agora um transporte regular de veículos, semanal, entre Guayaquil e Cidade do Panamá, por cerca de US$1.000,00. Dê uma pesquisada nisso, talvez encontre alguma informação no Google. Se encontrar, me avise porque ainda voltarei e farei o trajeto até o Alaska, igual vocês.
    Um abraço e boa viagem.
    Ricardo

  4. Ricardo confirmou se existe aquele transporte de Guayaquil a cidade do Panama por Us 1000,00 e que empresa seria esta obg..se puderes me responde por e-mail te agradeceria um abs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: