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GUATEMALA

San Cristóban, Guatemala

Entramos na Guatemala por San Cristóban. Era ante-véspera de natal e a fronteira estava toda decorada com papais noeis, meninos jesus, reis magos e manjedouras para lá e para cá. Esse espírito parece que amoleceu nossos corações a ponto de nem nos importarmos com o velho conhecido processo de entrada/saída das fronteira centro-americanas.

Queríamos passar o natal em um lugar tranquilo e bonito. Fomos para Antígua, que por dois séculos foi a capital de toda a centro-américa espanhola, até que um terremoto destruiu metade da cidade em 1717. A população que era estimada em 60 mil habitantes naquela época, hojé é a metade disso. A cidade fica num vale cercada por três vulcões imponentes, a mais de 1.600 metros de altitude. A combinação de traços culturais e étinicos maia com o barroco espanhol dá um ar todo especial ao lugar.

No dia seguinte, fomos conhecer o Lago Atitlan, o mais profundo da centro-américa, considerado um dos mais belos do mundo. Em El Salvador soubemos um pouco da história da segunda mais longa e sangrenta guerra civil centro-americana. Aqui no Lago Atitlan descobrimos que a primeira da lista foi a Guerra Civil da Guatemala, que se extendeu entre 1960 e 1996, com um saldo de 140 mil civis mortos e 44 mil desaparecidos. Dentre eles, 300 maias que viviam no lago e até hoje estão sendo esperados por seus familiares.

A viagem ao lago foi longa, subindo uma serra interminável. Crianças estendiam as mãos à beira do caminho, acenando e pedindo doces. Chegamos a Tamajachel, na borda do lago e atravessamos de barco até San Pedro de La Laguna, do outro lado. Era dia de feira. Gente ocupando a rua toda, dezenas de barracas vendendo de tudo, animais, roupas, frutas, verduras. As mulheres usavam vestidos índios coloridos, os homens batas escuras. As pessoas conversavam num idioma que não compreendíamos. Na praça onde estava a igreja central havia uma referência a uma marcha pacífica de mulheres e crianças que saíram a pé daquele lugar rumo a uma base militar próxima num protesto contra o desaparecimento de seus maridos e pais durante a guerra civil. O protesto foi recebido à bala, em mais uma das atrocidades daqueles tempos.

Lago Atitlán, Guatemala

Passamos o resto do dia em San Pedro, atravessamos o lago no sentido inverso e voltamos para Antígua para nossa ceia. Anoitecia quando chegamos. O trânsito estava caótico. Era noite de natal e todos os automóveis, vans, ônibus do lugar, por algum motivo que desconhecíamos, saíram para as ruas estreitas da cidade ao mesmo tempo nessa noite especial. Só isso pode explicar o que víamos à nossa frente. De repente, num cruzamento perto do hotel onde estávamos, em um momento onde nenhuma regra de trânsito prevalecia, tornou-se impossível proseguir. Nada mais se movia. A ONÇA foi bloqueada por carros à frente, atrás e aos lados. Esses, por sua vez, eram bloqueados por outros, que eram bloqueados por outros.

Antígua, Guatemala

Travou! Não havia mais condições físicas para os veículos se locomoverem. Uma situação insólita, irreal se não estivéssemos vendo… e ouvindo as buzinas ensandecidas. As pessoas começaram então a deixar seus carros e pular os veículos na rua a caminho de casa. Muitos saíam pelas janelas, quando não havia espaço nem para abrir as portas. Foi o que fizemos. Fora nós, ninguém mais estava estressado. Todos ríam. Pareciam se divertir com aquilo. De repente começaram a soltar rojões. A cidade inteira soltando rojões. Talvez seja esse um costume. Sabe lá. Uma catarse coletiva, largar os carros na rua como que tirando dos ombros o peso de tudo o que foi vivenciado naquele ano e recomeçar aliviado. Deixamos a ONÇA no meio da rua e, pela primeira vez na viagem, tivemos a certeza de que ela não seria roubada naquela noite. Nossa ceia de natal foi inesquecível. Uma garrafa de vinho, um panetone, um banco na praça, estrelas, e um mosaico de carros entalados, num engarrafamento definitivo e final.

Nem tão final assim. Na manhã seguinte o encaixe começou a ser desmontado da única maneira possível: pelas beiradas. Aos poucos, os veículos na periferia do engarrafamento foram sendo retirados pelos seus donos, dando espaço para outras retiradas, e outras, e mais outras. Conseguimos liberar a ONÇA à tarde. O processo durou todo o dia. À noite as ruas voltaram ao normal. Vida nova.

Deixamos Antígua no dia seguinte, 27 de dezembro. Subimos rumo noroeste, passamos o ano novo na Sierra de Chaucus, sem engarrafamentos, e entramos no México.

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