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NICARÁGUA

Chegamos tarde de volta a San José. Um pouco mal humorados com a situação vivida nos últimos dias. A princípio, ficaríamos alguns dias conhecendo a cidade, o Lago Arenal e seus vulvões ao redor; mas o mal humor modificou nossos planos. Pegamos a ONÇA e seguimos para a Nicarágua. Foram 290 quilômetros de estrada sem acostamento, cheia de caminhões lentos, pontes estreitas, até atingirmos a fronteira. O sol estava forte e a luz maravilhosa. À nossa direita, a cadeia de montanhas que percorre toda a América Central, à esquerda, de vez em quando avistávamos o Pacífico ao longe. Chegamos à fronteira com a Nicarágua na hora do almoço. O lugar era ainda mais confuso que as fronteiras anteriores. Filas de caminhões a perder de vista. Caminhoneiros acampados há dias esperando sua vez para a inspeção. Nossos trâmites foram mais tortuosos e complexos que os vividos na passagem do Panamá para a Costa Rica. Mas, já estávamos calejados. Tiramos de letra. Pensamos até em, quem sabe, um dia escrever o “Manual das Fronteiras Latino-Americanas”. Um passo-a-passo, ilustrado, com informações e dicas para o auto-turista aventureiro.

Nicarágua

Deixamos a fronteira para trás e tudo melhorou. Logo nos primeiros minutos apareceu o Vulcão Conception, ao lado de outro, o Madera, no imenso Lago Nicarágua. As vilas no caminho para Manágua, capital do país, são diferentes, com casas coloridas, muita gente na rua, bicicletas, mototaxis transitando para todo lado debaixo de um sol escaldante.

Manágua, Nicarágua

No fim da tarde entramos em Manágua. Para nós que vivemos com intensidade os anos 1970, é impossível não lembrar das imagens do ditador patrocinado pelo governo americano fugindo do país e da Frente Sandinista de Libertação Nacional entrando em Manágua. Em entrevista recente, um escritor nicaraguense que militou na FSLN descreveu assim o clima vivido naquele momento: “Nós nos sentíamos com o poder de varrer o passado, estabelecer o reino da justiça, repartir a terra, ensinar todos a ler, abolir os velhos privilégios, restabelecer a independência da Nicarágua e devolver aos humildes a dignidade que lhes havia sido arrebatada por séculos”. A julgar pelo que vemos, a batalha foi dura. Após uma guerra civil cruenta por quase uma década, e um embargo econômico imoral imposto pelos Estados Unidos, a Nicarágua segue como o segundo país mais pobre do continente americano e o segundo menor PIB do mundo.

Andar por Manágua foi uma experiência que desafiou ao limite nosso senso de orientação. As ruas não têm nome e as casas não têm número. Os endereços são ditos mais ou menos assim: de los semáforos, dos cuadras arriba, una cuadra al lago, casa esquinera. Neste ambiente é vital termos uma orientação geográfico-espacial, coisa que não é comum no Brasil. Depois de muito errar, conseguimos incorporar ao nosso vocabulário o modo como os locais se referem às quatro direções cardeais: al lago (para o norte, que é onde fica o Lago Xelotlán), arriba (para o leste, direção onde o sol sobe do horizonte), al sur (para o sul, essa é fácil), abajo (para o oeste, direção onde o sol desce no horizonte). Rodamos uns sete quilômetros dentro da cidade até chegarmos à Plaza de La Revolución, e de lá fomos a pé até a Laguna de Tiscapa, apenas para conhecer a enorme e bela estátua do General Sandino, o mais conhecido símbolo de Manágua.

Esteli, Nicarágua

Manágua não é propriamente uma cidade acolhedora e aconchegante. No dia seguinte partimos rumo norte para Esteli, a 100 quilômetros da fronteira com Honduras, onde passamos um dia. Um dia especial pois, por sorte, chegamos quando acontecia a grande festa do ano:  la fiesta patronale. Foi impossível conseguir um hotel. A cidade estava lotada. Desfiles com cavaleiros fantasiados, barraquinhas com comida espalhadas pelas praças, bandas, e uma multidão de todas as idades dançando nas ruas o dia todo. No final do dia, paramos a ONÇA numa praça periférica, armamos a barraca de teto e dormimos ao som das bandas ao longe. Saímos cedo para Honduras na manhã seguinte. Em nossa praça, bêbados dormiam felizes no chão.

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