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TRAFEGAR É PRECISO

eu

Me lembro do espanto, quando ainda criança, ao descobrir que havia países na América do Sul onde a língua oficial era o francês, o holandês, o inglês.  Eram as três Guianas. Como assim? E o Tratado de Tordesilhas? Portugal e Espanha não haviam dividido o mundo ao meio? Como é que os franceses, holandeses e ingleses chegaram aqui? Até então imaginava a América do Sul como uma porção de pequenos países de língua espanhola cercando o Brasil.

Por décadas essa foi uma questão difícil para mim. Me dei conta que não conhecia nenhum guiano, nem ao menos um parente distante de um guiano. Nem um cantor guiano, um atleta guiano, um político guiano.

Recentemente me enchi de coragem e resolvi tirar essa estória a limpo. As Guianas existem mesmo? Trafegar é preciso!

trajeto

Possivelmente, Sérgio e Rita, minha esposa, tiveram a mesma angústia quando crianças, pois se animaram de imediato quando os convidei para a viagem. Em casa, entre uma branquinha e outra, traçamos os planos. Vamos de carro, isto é, com a ONÇA, de Campinas a Belém. De lá, por uma balsa contornando a Ilha do Marajó, chegaremos a Macapá e subiremos até a cidade de Oiapoque. Então, se estiverem lá, entraremos na Guiana Francesa, depois no Suriname (antiga Guiana Holandesa) e finalmente na Guiana (antiga Guiana Inglesa). De volta ao Brasil, desceremos até Boa Vista, depois Manaus, depois rumaremos para Humaitá pela BR319, de lá para Itaituba pela Transamazônica, para então voltar a Campinas. Parece fácil, não? No final da conversa, um pouco embriagada, Rita lembrou que isso tudo seria em janeiro, alta estação de chuvas na Amazônia brasileira. Foi quando Sérgio, um pouco sóbrio, trouxe a solução: levaremos guarda-chuva! E assim terminamos a cachaça e o planejamento da viagem.

Logo após o almoço de natal de 2011, jogamos a tralha toda na ONÇA e deixamos Campinas para trás. E foi passando Ribeirão Preto, Uberaba, Cristalina, Planaltina, São João da Aliança, Alto Paraíso, Colinas do Tocantins, Imperatriz… Após 3.109 km, rodados em três intensos e cansativos dias, enfim chegamos a Belém do Pará.

mercado Ver-o-Peso

Passamos dois dias lidando com os trâmites do embarque da ONÇA para Macapá. Vencida essa etapa, nos dedicamos a comer. Só coisinhas leves, tacacá, pato no tucupi, maniçoba, açaí, bacaba, tucunaré, pirarucu, castanha-do-pará, bacuri, pupunha, tambaqui, tucumã, muruci, piquiá e taperebá, arroz de jambú, açaí e o translumbrante sorvete de cupuaçu da Cairú. Essa orgia gustativa compensou cada quilômetro rodado nos dias anteriores. O que há de mais marcante e singular em Belém é a culinária.

mercado Ver-o-Peso

A virada do ano foi na barraca da Dona Ana, no Ver-o-Peso, comendo tacacá de joelhos, entre bêbados, prostitutas e garis. Estávamos alegres. O ano acabou e a viagem continua.

praia do Rio Amazonas em Macapá

No primeiro dia de 2012 voamos de Belém para Macapá, a única capital estadual brasileira às margens do Rio Amazonas. A cidade é cortada pela linha do Equador, que aliás divide ao meio o campo de futebol do maior estádio do estado do Amapá. No início dos jogos os times estão em hemisférios diferentes.

Fazia 35 graus em Macapá no final da tarde de primeiro de janeiro. A orla do Amazonas estava lotada de barracas vendendo coco, batata frita, sorvete, cerveja. Muita gente passeando para lá e para cá.

maré vazante na praia do Rio Amazonas em Macapá

Pegamos a ONÇA no dia seguinte e fomos ao Jeep Club do Amapá conhecer os jipeiros e saber das condições da estrada para Oiapoque. Como sempre por esse Brasil grande, foram extremamente atenciosos conosco. Nos deram o telefone de outros jipeiros em Oiapoque, Cayenne e Paramaribo. Depois de uma boa conversa nos escoltaram em caravana até o quilômetro 9 da BR156, rodovia que leva ao Oiapoque.

Rio Oiapoque

Foram quase 600 km de estrada vazia e reta. Os 180 km finais era terra, passando por várias aldeias indígenas nas proximidades do Parque Cabo Orange. Enfim chegamos a Oiapoque, à beira do Rio Oiapoque, que separa o Brasil da Guiana Francesa.

Rita e Sérgio no Rio Oiapoque

Há dois anos, Lula e Sarcozy inauguraram uma ponte sobre o Rio Oiapoque, ligando os dois países. Mas essa ponte até hoje está fechada ao trafego por motivos incompreensíveis para nós, que acabávamos de chegar e queríamos seguir viagem prontamente. Dizem os locais que falta colocar as duas aduanas nas cabeceiras das pontes e regulamentar o trânsito entre os dois países. Mas como em dois anos não conseguiram fazer isso, desconfio que tenha gente graúda descontente com essa ponte. A propósito, o transporte de gente e mercadorias entre Brasil e Guiana Francesa é controlado por apenas uma empresa, que cobrou US$ 200 para transportar a ONÇA por 20 minutos para o outro lado.

Comments

  1. Bia Cordeiro says:

    Quero ler mais!! Continua aí sô!!!

    • Calma, estou escrevendo…

      • É mesmo inadimissível.
        Para baratear o transporte, vocês podem esperar a balsa lotar com outros veículos e mercadorias, aí eles diminuem o preço do frete.

      • marcos overlangue says:

        Prezado Cordeiro, voce tem alguma informação adicional a respeito deste trajeto?
        Dicas de hoteis, balsas, travessias, custos? Pretendemos sair de Curitiba, cruzarmos as 3 Guianas e regressar via Boa Vista, Manaus, Santarem….

      • Não tenho nada a adicionar, além do que está no blog. Apenas fico morrendo de vontade de acompanhar vocês nessa viagem. A travessia é muito bonita, particularmente as áreas de floresta da Guiana e da Amazônia brasileira. Tirem muitas fotos e façam um relato. Boa viagem!

  2. marcos overlangue says:

    É brincadeira não é? Estamos planejando uma viagem saindo aqui de Curitiba em agosto de 2013 imaginando que a ponte estivesse liberada. E agora, iremos em 4 veículos. US$ 800,00 para cruzar o rio???? De fato só pode ser mutreta. Onde está a nossa “presidente” para por ordem neste galinheiro???

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