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ILES DU SALUT – o inferno no paraíso

Vinte minutos depois de embarcar num ferry, chegamos a Saint Georges, na outra margem do Rio Oiapoque. Sim, a Guiana Francesa existe! Estive lá. Brasileiros precisam de visto para entrar nesse “departamento extra-marinho francês”. Seguimos margeando o litoral até Cayenne, capital do país/departamento/colônia.  Cayenne é uma cidade bem comportada, que dorme cedo, sem favelas, sem crianças de rua, sem bêbados nos botecos, sem nem botecos. Alguns dias depois, tocamos em frente.

l'amour toujour l'amour, Cayenne

Este é um lugar difícil de caracterizar. Parece não haver uma identidade local. Logo ao noroeste ficam as Antilhas e o mar do Caribe. Ao sudeste ficam os litorais norte e nordeste do Brasil. E no meio disso os moradores se dizem franceses e parte da Comunidade Européia (aliás, a moeda local é o Euro). Mas, até onde minha geografia permite raciocinar, a comunidade européia fica na Europa e a Guiana Francesa fica na América do Sul. Entre elas há um oceano de diferenças.

praia dos oficiais, Ile Royale

Franceses, ingleses, holandeses e portugueses viviam às escaramuças por aqui. Disputavam quem mais explorava a terra das vária etnias indígenas que habitavam o local desde muitos séculos antes deles chegarem. Em 1815 os franceses foram confirmados como os “donos” desse lugar por um tal Congresso de Viena. A essa altura, eles começavam a demonstrar sua auto-proclamada vocação humanitária, tratando com muita igualdade, liberdade e fraternidade os povos do Haiti, da Argélia, da Guiné, do Senegal, da Costa do Marfim, da Indochina, e de tantas outras paragens. Resolveram então transformar esse pedaço da América do Sul em colônia penal para hospedar indesejados de todo o império. Alguns presídios foram então construídos aqui e durante cem anos, entre os séculos 19 e 20, receberam mais de 90 mil prisioneiros, dos quais um terço jamais voltou para casa. O mais famoso dos presídios foi implantado nas malsinadas Iles du Salut: um conjunto de três pequenas e paradisíacas ilhas perto da costa: Ile Royale, Ile Saint-Joseph e Ile du Diable, que foram palco de todo o tipo de brutalidade contra a população carcerária. Esse sistema prisional foi desativado nos anos 50 do século passado.

cemitério, Ile Royale

Tenho uma atração mórbida por presídios. Não sei exatamente porque. Já visitei alguns famosos, como Alcatraz (São Francisco),  Kilmainham (Dublin),  Ushuaia (Ushuaia), Carandiru (São Paulo). As misérias da alma se amplificam nesses lugares. Suas inúmeras estórias de tentativas de fuga, geralmente mal sucedidas, testemunham o inconformismo do espírito humano. Tomamos um catamarã e seguimos para as ilhas. Diferentemente das praias continentais da Guiana Francesa, as ilhas são cercadas de águas azuis e claras. Têm uma vegetação exuberante. Na Ile Royale ficava a administração dos presídios. Os prisioneiros mesmos “moravam” na Ile Saint-Joseph e na Ile du Diable. O presídio foi desativado em 1953. Ficaram suas ruínas, suas estórias, seus fantasmas.

a todos os que fugiram, vivos ou mortos, Ile du Diable

Sob denso silêncio, andamos um dia inteiro pelas ruínas do presídio. Após, pegamos um barco de volta para o continente e seguimos para a fronteira oeste, com o Suriname.

 

Comments

  1. Bia Cordeiro says:

    Uáu!!! Os posts estão ficando cada vez melhor! Estou adorando!
    E que fotos maravilhosas! Adorei todas!
    E a atração mórbida eu diria que é por presídios e por cemitérios né?!

  2. Helenilson Fonseca says:

    Ótimo post, mas só uma ressalva: A comunidade européia, ou União européia é um organismo político administrativo. A Guiana francesa, Martinica, Guadalupe, Saint Barths, Saint Martin (no Caribe), Mayotte (África) , Polinésia francesa (oceano Índico) fazem parte sim da Comunidade européia apesar de não estarem no continente europeu (organismo geográfico).

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